Se você é pai, mãe, cuidador ou educador de uma criança autista, provavelmente já sentiu um misto de alívio e preocupação com a internet.
De um lado, as telas podem acalmar, divertir, ensinar e até facilitar a comunicação.
Do outro, surgem medos reais: conteúdo inadequado, exposição excessiva, cyberbullying, golpes, dependência de jogos ou vídeos.
Crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem ser ainda mais vulneráveis no ambiente digital, justamente por características que fazem parte do seu jeito de ser: hiperfoco, dificuldade em perceber intenções maliciosas, sensibilidade sensorial, necessidade de previsibilidade e rotinas.
Este artigo foi pensado para te ajudar a proteger a criança autista na internet sem pânico, sem culpa e sem demonizar as telas. Vamos entender as principais dificuldades, os riscos e, principalmente, estratégias práticas para promover uso seguro, saudável e acompanhado.
Antes de falar de ferramentas e configurações, é importante reconhecer as emoções por trás desse tema. Muitas famílias vivem:
Medo de exposição:
“E se meu filho falar com estranhos, compartilhar dados pessoais ou cair em golpes?”
Preocupação com conteúdos inadequados:
Vídeos com gritos, violência, sustos, palavrões ou estímulos sensoriais exagerados que podem desorganizar emocionalmente a criança.
Culpa pelo tempo de tela:
A internet muitas vezes é o único momento de calma do dia, mas vem acompanhada do pensamento: “Será que estou prejudicando o desenvolvimento dele?”
Dificuldade com limites e frustrações:
Desligar o tablet ou o celular pode gerar crises intensas, choros, agressividade ou fechamento total.
Sensação de descontrole:
Pais que sentem que “perderam a mão” e já não sabem o que é adequado em termos de tempo, conteúdo e liberdade.
Se você se identificou com alguma dessas situações, respire fundo: você não está sozinho(a). A boa notícia é que é possível equilibrar proteção e autonomia, com estratégias simples, consistentes e adaptadas ao perfil da criança.
A segurança digital começa pelo conhecimento dos riscos. No caso do TEA, alguns pontos merecem atenção extra.
Muitas crianças autistas podem:
Levar tudo ao pé da letra;
Ter dificuldade em reconhecer sarcasmo, ironia ou ameaças sutis;
Acreditar que “todo mundo é amigo” na internet.
Isso as torna mais vulneráveis a:
Manipulações emocionais (“Se você me mandar uma foto, eu continuo sendo seu amigo”);
Convites perigosos (encontros presenciais, grupos secretos, desafios tóxicos);
Compartilhamento de informações pessoais (endereço, escola, rotina da família).
O hiperfoco em determinado jogo, canal ou tema pode levar a:
Uso excessivo de telas;
Crises intensas quando o acesso é interrompido;
Maior exposição a conteúdos repetitivos sem filtro de qualidade.
Sons altos, flashes, imagens muito rápidas podem gerar:
Sobrecarga sensorial;
Aumento de ansiedade;
Desregulação emocional após o uso da internet.
A criança autista pode:
Não perceber que está sendo ridicularizada;
Entender xingamentos como “brincadeira”;
Não contar o que acontece por medo, vergonha ou dificuldade em relatar fatos.
Por isso, não basta apenas “tirar o aparelho”. É preciso criar um ambiente digital estruturado, previsível e acompanhado, que respeite o jeito de ser da criança.
Pense na segurança digital como uma casa:
não é apenas a porta que protege, mas também as janelas, o muro, o portão e as regras de quem entra.
Telas em espaços comuns, sempre que possível (sala, escritório, área de estudos).
Isso facilita o acompanhamento natural, sem clima de vigilância policial.
Rotina visual da internet:
Use quadros, pictogramas ou checklists com:
horários de uso;
quais apps/jogos são permitidos;
o que a criança deve fazer antes (tarefas, alimentação, higiene).
Isso é especialmente útil para crianças autistas, que se sentem mais seguras com previsibilidade.
Use a tecnologia a seu favor:
Controles parentais de sistemas operacionais, navegadores e aplicativos;
Perfis infantis em plataformas de vídeo e streaming;
Bloqueio de sites e termos de busca inadequados;
Limites de tempo de tela configurados em apps específicos (por exemplo, só 40 minutos de determinado jogo).
Lembre-se: o controle parental não substitui a presença do adulto, mas reduz a exposição a riscos mais graves.
Explique as regras da internet de forma:
Concreta (sem metáforas complexas demais);
Visual (com figuras, exemplos, histórias sociais);
Repetida (não basta falar uma vez, é preciso reforço).
Exemplo de frase adaptada:
“Se alguém que você não conhece na vida real falar com você na internet, você me chama. Nós decidimos juntos se é seguro.”
Você pode criar histórias sociais sobre segurança digital, mostrando um personagem autista que aprende a:
Não compartilhar dados pessoais;
Não enviar fotos íntimas;
Avisar um adulto quando algo o deixar confuso ou desconfortável.
Para muitas crianças autistas, regras claras funcionam melhor do que orientações gerais como “tenha cuidado na internet”.
Liste de forma visual e simples:
Nome completo;
Endereço;
Escola;
Senhas;
Fotos sem roupa ou em situações íntimas;
Rotinas da família (“meu pai não está em casa”, “estamos viajando”).
Você pode transformar isso em um cartaz perto do computador ou do tablet.
Crie um protocolo simples, como:
Pausar o que está acontecendo (fechar o app, abaixar o volume, bloquear o contato);
Chamar um adulto de confiança (pai, mãe, cuidador, professor);
Contar o que viu ou ouviu, mesmo que pareça “bobo”.
Reforce sempre:
“Você nunca vai estar em problema por me contar algo que aconteceu na internet. Eu estou aqui para te proteger, não para brigar.”
Em vez de proibir tudo, deixe claro:
Quais jogos e canais são permitidos;
Quanto tempo de tela por período do dia;
Em quais horários (por exemplo, não usar internet perto da hora de dormir).
Para crianças autistas, é muito útil usar:
Quadros de rotina com ícones de “tempo de tela”;
Temporizadores visuais (ampulhetas, timers, aplicativos com contagem regressiva).
Segurança digital não significa transformar a internet em inimiga.
Ela pode ser uma grande aliada no desenvolvimento da criança autista, desde que usada com intenção, limites e acompanhamento.
Priorize:
Canais educativos com linguagem clara;
Jogos que estimulem habilidades cognitivas, sociais ou de linguagem;
Conteúdos que respeitem as sensibilidades sensoriais da criança (sem gritos, luzes fortes, sustos).
Pergunte a terapeutas (fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais) se eles têm indicações de apps, jogos e vídeos que possam complementar intervenções.
Em vez de deixar a criança sempre “sozinha com a tela”, experimente:
Assistir vídeos juntos e comentar o que está acontecendo;
Jogar em dupla, revezando comandos;
Usar videochamadas com familiares como treino de habilidades sociais em ambiente protegido.
Evite telas muito próximas da hora de dormir;
Observe se certos conteúdos deixam a criança mais agitada, ansiosa ou irritada – mesmo que sejam “infantis”;
Faça pausas programadas ao longo do dia, com atividades offline que a criança goste (brincadeiras sensoriais, leitura, movimento).
Lembre-se: crianças autistas podem ter mais dificuldade em “desligar” do estímulo digital, então é importante que a transição para o offline seja gradual, visual e previsível.
Proteger crianças autistas na internet vai muito além de instalar um controle parental.
É sobre:
Conhecer os riscos sem entrar em pânico;
Respeitar a forma como a criança percebe o mundo;
Criar rotinas claras e visuais;
Estar presente, disponível e aberto ao diálogo.
Você não precisa ser especialista em tecnologia para cuidar da segurança digital do seu filho.
O que mais faz diferença é a relação de confiança: a criança precisa sentir que pode contar com você quando algo estranho, confuso ou assustador surgir na tela.
Se este conteúdo te ajudou, compartilhe com outras famílias, educadores e profissionais. Juntos, podemos transformar a internet em um espaço mais seguro, inclusivo e acolhedor para pessoas autistas.