Cuidar de uma criança autista é, muitas vezes, aprender a enxergar o mundo por outros olhos. Sons que parecem comuns para a maioria das pessoas podem ser insuportáveis. Roupas que “não incomodam ninguém” podem ser insuportavelmente ásperas. Um simples dia no mercado ou na escola pode ser extremamente cansativo do ponto de vista sensorial.
Nesse contexto, as atividades sensoriais não são “brincadeiras qualquer”, mas ferramentas poderosas para ajudar a regular emoções, prevenir crises e promover bem-estar. Este artigo vai te mostrar, de forma simples e prática, como utilizar atividades sensoriais para ajudar na regulação emocional de crianças e adolescentes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Antes de falar das atividades, é importante acolher as dores de quem cuida:
Crises frequentes em situações aparentemente “simples”, como trocar de roupa, ir ao mercado ou tomar banho.
Sensação de impotência, sem saber o que fazer para acalmar a criança quando ela chora, grita ou se isola.
Cansaço emocional, por viver em alerta constante, com medo de novas crises.
Culpa, por achar que “não está fazendo o suficiente” ou por perder a paciência em alguns momentos.
Falta de orientação clara, com muitas informações disponíveis, mas poucas explicações práticas sobre o que realmente funciona no dia a dia.
Se você se reconheceu em alguma dessas situações, respira fundo: você não está sozinho(a). As dificuldades sensoriais fazem parte da realidade de muitas crianças no espectro, e entender isso é o primeiro passo para agir com mais segurança e menos culpa.
As atividades sensoriais entram justamente como uma ponte entre o mundo interno da criança e o ambiente ao redor, ajudando o cérebro a se organizar e, com isso, facilitando a regulação das emoções.
O nosso cérebro funciona como uma “central de controle” que recebe informações dos sentidos o tempo todo: visão, audição, tato, olfato, paladar, além dos sistemas vestibular (equilíbrio) e proprioceptivo (percepção do próprio corpo).
Para muitas pessoas autistas, essa “central de controle” recebe informações em volume muito alto ou muito baixo. É como se o botão do volume estivesse sempre no máximo ou no mínimo.
Hiperresponsividade sensorial: quando o cérebro reage de forma exagerada aos estímulos. Ex.: sons comuns parecem insuportáveis, luzes são muito fortes, toques incomodam.
Hiporresponsividade sensorial: quando o cérebro reage pouco. Ex.: a criança busca estímulos intensos o tempo todo (pular, girar, apertar), parece não sentir dor facilmente, procura impacto físico.
Quando o sistema sensorial está sobrecarregado ou desregulado, as emoções também saem do eixo: a criança fica irritada, ansiosa, chorosa, agressiva ou totalmente desligada. Atividades sensoriais bem escolhidas ajudam a:
Diminuir a sobrecarga;
Proporcionar conforto e previsibilidade;
Ajudar o corpo a encontrar um “meio-termo” entre agitação e apatia;
Facilitar a comunicação, o vínculo e o aprendizado.
Uma boa metáfora é pensar no corpo como um copo d’água: quando o copo está transbordando de estímulos, qualquer gota extra vira crise. As atividades sensoriais ajudam a esvaziar um pouco esse copo antes que ele transborde.
As atividades proprioceptivas trabalham a percepção do corpo e costumam ter um efeito regulador muito forte para muitas crianças com TEA. Elas envolvem pressão, peso e resistência.
Abraços de urso (com consentimento): apertos firmes e acolhedores, combinados com a criança. Você pode perguntar: “Quer um abraço forte ou suave?”.
Enrolar em cobertores: como um “sanduíche” ou “taco humano”, sempre respeitando o limite da criança e garantindo que ela consiga se mexer e respirar bem.
Brincar de empurrar e puxar: empurrar a parede, empurrar um sofá leve, puxar uma corda, brincar de cabo de guerra.
Mochila com peso leve: colocar alguns livros dentro da mochila (sempre em peso adequado, sem exageros) enquanto a criança anda pela casa ou faz alguma atividade.
Caminhar como animais: andar como urso, caranguejo, sapo – essas posturas ativam músculos e articulações.
Massagens firmes: com creme ou óleo específico, fazendo movimentos mais firmes nos braços, pernas e costas, se a criança gostar.
Essas atividades passam a sensação de “estar dentro do próprio corpo” e podem reduzir a agitação, a ansiedade e até ajudar na preparação para dormir, tomar banho ou fazer tarefas mais difíceis.
O tato é um dos sentidos mais sensíveis em muitas pessoas autistas. Algumas crianças amam explorar texturas; outras rejeitam qualquer toque diferente. A proposta aqui é oferecer atividades táteis de forma gradual, respeitosa e divertida.
Caixa sensorial:
Use uma caixa plástica e preencha com:
arroz, feijão, milho, areia limpa, bolinhas de gel (usadas com supervisão);
esconda brinquedos pequenos para a criança encontrar com as mãos.
Massinhas e argila:
Amassar, apertar, cortar com moldes. Você pode transformar em jogo: “Vamos fazer uma pizza de massinha?”
Pintura com os dedos:
Para crianças que toleram sujeira nas mãos, a pintura digital é excelente. Para as que ainda têm resistência, você pode começar com pincéis grossos e rolinhos, até que elas se sintam mais confortáveis.
Bandeja com farinha, sal ou areia:
A criança pode desenhar letras, formas ou caminhos com os dedos, carrinhos ou pincéis.
Brincadeiras com água:
Bacias com água, potinhos para encher e esvaziar, brinquedos que espirram água. A temperatura da água (mais morna ou mais fresca) também pode ter efeito calmante.
Essas atividades ajudam a criança a focar no aqui e agora, a explorar o mundo de forma concreta e a desenvolver tolerância a diferentes sensações, o que reduz a chance de crises em situações do dia a dia.
Não basta ter várias ideias de atividades; o segredo está em como e quando usá-las. É aqui que entra o conceito de rotina sensorial: um conjunto de atividades planejadas ao longo do dia para ajudar a regular o corpo e as emoções.
Pular no colchão ou cama elástica (sempre com supervisão);
Brincar de corrida de obstáculos com almofadas, cadeiras e túneis;
Girar em brinquedos apropriados, escorregadores, balanços;
Yoga ou alongamentos infantis, com vídeos ou figuras simples.
O objetivo não é apenas gastar energia, mas organizar o corpo. Muitas crianças se regulam melhor depois de se movimentar de forma estruturada.
A respiração é uma ferramenta poderosa, mas precisa ser adaptada de forma lúdica:
Respiração do cheirinho de flor e sopro da vela:
“Cheira a flor” (inspirar pelo nariz), “sopra a vela” (expirar pela boca).
Respiração do balão:
“Vamos encher um balão na barriga?” – colocar a mão na barriga e observar subir e descer.
Respiração com brinquedo:
Soprar bolhas de sabão, bolinhas de algodão ou apitos suaves.
Você pode usar essas respirações antes de uma situação desafiadora ou logo após uma crise, quando a criança começar a se acalmar.
Uma rotina sensorial não precisa ser complicada. Ela pode incluir:
Antes da escola:
abraço de urso + alongamento rápido + respiração do balão;
Depois da escola:
10–15 minutos de brincadeira de movimento (pular, correr, empurrar) + caixa sensorial;
Antes de dormir:
massagem com creme + história calma + respiração da flor e vela.
A ideia é antecipar a desregulação, e não agir apenas quando a crise já começou. Com o tempo, você vai perceber quais atividades funcionam melhor para a sua criança e em que momento do dia.
Atividades sensoriais que ajudam a regular emoções não são fórmula mágica, mas podem se tornar um verdadeiro kit de primeiros socorros emocionais para a criança e para a família.
Ao oferecer essas experiências com amor, respeito e constância, você:
ajuda o cérebro da criança a se organizar;
reduz a frequência e a intensidade de crises;
fortalece o vínculo entre vocês;
mostra que ela não está sozinha para enfrentar um mundo que, às vezes, pode ser intenso demais.
Lembre-se: cada criança autista é única. O que acalma uma pode desorganizar outra. Por isso, observar, testar e adaptar é parte essencial do processo.
Se este conteúdo te ajudou a entender melhor o papel das atividades sensoriais na regulação das emoções, compartilhe com outras famílias, educadores e profissionais que também precisam desse suporte.
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Sua experiência pode inspirar e fortalecer outras pessoas que estão vivendo o mesmo caminho.