10 Brincadeiras Terapêuticas para Estimular a Comunicação

A comunicação é muito mais do que falar: é olhar, apontar, sorrir, pegar pela mão, levar o adulto até algo desejado, imitar sons, gestos e expressões. Para muitas crianças no Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse caminho da comunicação pode ser desafiador — mas também pode ser construído com leveza, através de brincadeiras terapêuticas.

Brincar não é “perda de tempo”: é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento. Quando o adulto entra no mundo da criança, respeita seu ritmo e transforma interesses em oportunidades de interação, a brincadeira passa a ser um espaço seguro para estimular linguagem, contato visual, turnos de conversa e vínculo.

Neste artigo, você vai conhecer 10 brincadeiras simples, adaptáveis à rotina, que podem ajudar a estimular a comunicação de forma amorosa, prática e sem pressão.

As dores de quem quer ajudar a criança a se comunicar

Antes das brincadeiras, é importante reconhecer as emoções de quem cuida:

  • Medo de “estar atrasado”: muitos pais e cuidadores temem que a criança esteja ficando para trás em relação a outras crianças.

  • Sentimento de impotência: tentar falar, explicar, estimular… e sentir que “nada funciona”.

  • Dúvidas sobre o que é certo: “Será que estou estimulando demais?”, “Será que estou forçando?”, “Será que estou fazendo algo errado?”.

  • Cansaço emocional: conciliar terapias, escola, rotina e ainda encontrar tempo e energia para brincar de forma intencional pode ser muito desafiador.

  • Medo de não ser compreendido: tanto a criança quanto o adulto podem sentir frustração por não conseguirem “se entender”.

Se você se identifica com essas dores, respire fundo: você não está sozinho(a). As brincadeiras abaixo não são fórmulas mágicas, mas são caminhos possíveis para que a comunicação floresça aos poucos, no tempo da criança.

1. Brincadeiras de imitação: quando o adulto entra no mundo da criança

A imitação é uma ponte importante para a comunicação. Quando o adulto imita a criança, ele mostra: “Eu te vejo, estou com você, quero entender o que você gosta”.

Como fazer

  • Observe o que a criança está fazendo: batendo um brinquedo na mesa, girando um objeto, pulando, balançando, cantarolando uma melodia…

  • Imite o comportamento de forma suave e respeitosa: se ela bate o carrinho no chão, você pega outro carrinho e faz o mesmo.

  • Use expressões faciais exageradas (olhos atentos, sorriso, surpresa) para mostrar interesse.

  • Aos poucos, adicione pequenas variações: se ela bate o carrinho uma vez, você bate duas; se ela gira o objeto, você gira e faz um som divertido.

O que essa brincadeira estimula

  • Atenção compartilhada: a criança percebe que há alguém participando do que ela faz.

  • Início de turnos: um faz, o outro faz, criando uma “conversinha” em forma de ações.

  • Vínculo e segurança: a criança sente que não precisa abandonar o que gosta para estar com o adulto.

Dica prática

Não tente “corrigir” a brincadeira da criança logo de início. Primeiro, entre no jogo dela. Depois, pouco a pouco, vá incluindo novas possibilidades.

2. Esconde-esconde de objetos: surpresa que incentiva contato visual

Brincadeiras de “cadê/achou” são ótimas para estimular linguagem, atenção e contato visual de forma leve.

Como fazer

  • Escolha um objeto que a criança goste (um carrinho, boneco, mordedor, livro).

  • Mostre o objeto, diga: “Olha o carrinho!” e deixe a criança tocar.

  • Esconda o objeto parcialmente (atrás de um paninho, debaixo de uma caixa transparente, atrás das suas costas).

  • Pergunte: “Cadê o carrinho?”, usando tom de voz animado e cara de surpresa.

  • Quando o objeto aparece, diga: “Achou!” ou “Olha aqui!” com entusiasmo.

O que essa brincadeira estimula

  • Compreensão de linguagem (cadê, aqui, achou, olha).

  • Uso de gestos (apontar, olhar para o adulto, procurar com o olhar).

  • Turnos de comunicação (adulto pergunta, criança responde com olhar, gesto ou vocalização).

Variação

Se a criança gosta muito de alimentos específicos, bichinhos de borracha ou personagens, você pode usar esses itens para tornar a brincadeira ainda mais motivadora.

3. Brincadeiras com músicas e gestos: cantar para comunicar

Músicas infantis com gestos são excelentes para crianças no espectro, pois combinam ritmo, repetição e previsibilidade — elementos que podem trazer conforto e facilitar a participação.

Como fazer

  • Escolha músicas simples e conhecidas, como:

    • “Palma, palma, palma”

    • “Se você está feliz, bata palmas”

    • “A canoa virou” (adaptando o ritmo e a letra, se necessário).

  • Associe gestos simples às partes da música: bater palmas, bater os pés, levantar os braços, apontar, mandar beijo.

  • Cante de frente para a criança, bem próximo, favorecendo o contato visual.

  • Faça pausas dramáticas em momentos-chave, por exemplo:
    “Se você está feliz, bata…” (para, olha para a criança e espera qualquer resposta – olhar, sorriso, tentativa de bater palma, vocalização).

  • Reforce qualquer tentativa: “Isso! Você bateu palma!”, “Você olhou para mim!”, “Você fez o gesto!”.

O que essa brincadeira estimula

  • Imitação motora (gestos) e, depois, imitação de sons e palavras.

  • Antecipação: a criança começa a prever quando virá seu “momento” na música.

  • Iniciativa de comunicação: muitas crianças passam a pedir “de novo” com sons, gestos ou entregando a mão do adulto.

Dica

Se a criança se incomoda com sons altos, mantenha um volume suave e observe sinais de desconforto. A ideia é que a música seja prazerosa, não invasiva.

4. Brincadeira do “quero mais”: criando oportunidades para a criança se expressar

Em vez de oferecer tudo pronto, podemos criar pequenas “faltas” na rotina para que a criança tenha a chance de pedir, indicar ou se comunicar de alguma forma.

Como fazer

  • Escolha uma atividade que a criança adore:

    • Soprar bolhas de sabão

    • Brincar de rodar no colo

    • Brincar de cócegas

    • Jogar bola

    • Brincar de carrinho na rampa.

  • Faça a atividade por alguns segundos e então pare de propósito.

  • Olhe para a criança, segure o objeto (ou a própria ação) e pergunte:
    “Quer mais?”
    Ou então use apenas a expressão facial de expectativa, aguardando.

  • Espere a criança reagir:

    • Pode ser um olhar insistente,

    • um sorriso,

    • um som (“ah”, “ãh”),

    • um gesto (entregar a mão, puxar o braço, apontar).

  • Assim que ela der qualquer sinal, retome a brincadeira dizendo:
    “Quer mais? Mais bolha! Mais bola! Mais cócegas!”

O que essa brincadeira estimula

  • Iniciativa de comunicação: a criança aprende que pode “ativar” o adulto.

  • Associação entre gesto/olhar e resultado: comunicar traz retorno positivo.

  • Primeiras palavras (em alguns casos): “mais”, “bola”, “sopra”.

Variação

Você pode usar também recursos visuais simples (como figuras com “mais” e “acabou”) para apoiar a comunicação, principalmente se a criança responde bem a imagens.

5. Histórias com brinquedos e miniaturas: narrar o mundo da criança

Muitas crianças com TEA se conectam fortemente com temas específicos: dinossauros, carros, blocos, personagens de desenho, animais, etc. Usar esse interesse para criar pequenas histórias é uma maneira poderosa de estimular linguagem e imaginação.

Como fazer

  • Separe alguns brinquedos que a criança goste muito (por exemplo, carrinhos e uma garagem; bichinhos e uma casinha; bonecos e uma cama).

  • Comece narrando ações simples, com frases curtas:

    • “O carro sobe a rampa.”

    • “O cachorrinho dorme na cama.”

    • “O dinossauro está comendo.”

  • Use voz animada, sons divertidos (“vruuum”, “grrrr”, “nham nham”) e expressões faciais ricas.

  • Convide a criança a participar:

    • “Onde o carro vai agora?”

    • “Quem vai dormir aqui?”

    • “Quem está com fome?”

  • Aceite qualquer forma de resposta: apontar, pegar o brinquedo, olhar, colocar o personagem em algum lugar.

O que essa brincadeira estimula

  • Vocabulário funcional (substantivos, verbos, ações do dia a dia).

  • Compreensão de linguagem (“coloca aqui”, “pega o cachorro”, “faz dormir”).

  • Organização da sequência de eventos (primeiro sobe, depois desce; primeiro come, depois dorme).

Dica

Não se preocupe se a criança não repetir as palavras logo de início. Ouvir a narração, ver a cena acontecer e participar com gestos já é um grande passo.

6. Brincando de “troca de papéis”: a criança vira “protagonista”

Crianças no espectro muitas vezes se acostumam a ouvir instruções: “dá tchau”, “fala oi”, “senta”, “guarda o brinquedo”. Na brincadeira de troca de papéis, o adulto se coloca como quem “não sabe” e deixa a criança guiar.

Como fazer

  • Escolha uma brincadeira que a criança já conheça (montar blocos, encaixar figuras, colocar formas, montar pista de carrinho).

  • Finja “não saber” o que fazer:

    • Segure a peça “errada” de propósito,

    • coloque no lugar errado,

    • olhe para a criança com cara de dúvida.

  • Fale frases como:

    • “E agora, o que eu faço?”

    • “Onde eu coloco isso?”

    • “Assim, tá certo?”

  • Espere a criança reagir: muitas vezes ela vai:

    • Corrigir sua ação,

    • Pegar sua mão e mostrar onde colocar,

    • Fazer um som de protesto,

    • Rir e refazer da maneira certa.

O que essa brincadeira estimula

  • Comunicação funcional: a criança se expressa para “consertar” algo.

  • Liderança na interação: ela se torna protagonista, não apenas receptora de comandos.

  • Habilidade social: aprender a ajudar, ensinar, demonstrar.

7. Jogos de escolha: dando voz às preferências da criança

A comunicação também passa por aprender a fazer escolhas. Quando a criança tem oportunidades frequentes de escolher entre opções, ela vai entendendo que sua opinião importa.

Como fazer

  • Apresente duas opções claras, tanto em objetos quanto em imagens:

    • “Você quer suco ou água?”

    • “Você quer o carro azul ou o vermelho?”

    • “Você quer brincar de bola ou de massinha?”

  • Mostre as opções na mesma altura, deixando a criança olhar e explorar.

  • Espere alguma forma de resposta:

    • Olhar fixo para uma das opções,

    • apontar,

    • pegar o objeto,

    • vocalizar ou tentar falar a palavra.

  • Nomeie a escolha dela:

    • “Você escolheu a bola! Bola!”

    • “Ah, você quer o carrinho vermelho! Vermelho!”

O que essa brincadeira estimula

  • Tomada de decisão e senso de autonomia.

  • Vocabulário relacionado a objetos e cores.

  • Respeito às preferências da criança, fortalecendo o vínculo.

8. Brincadeiras sensoriais com palavras: explorar texturas e sons

Atividades sensoriais são muito importantes para crianças no TEA e podem, sim, ser usadas como momento de comunicação.

Como fazer

  • Prepare uma bandeja com diferentes texturas:

    • Arroz cru ou colorido,

    • massinha,

    • água morna,

    • espuma (sempre com supervisão),

    • tecidos macios ou ásperos.

  • Deixe a criança explorar e vá narrando as sensações:

    • “Molhado!”

    • “Macio!”

    • “Gelado!”

    • “Escorregadio!”

  • Observe como ela reage a cada textura e ajuste a intensidade conforme o conforto dela.

  • Crie pequenos jogos:

    • “Cadê o brinquedo escondido na massinha?”

    • “Vamos achar o bichinho no arroz?”

    • “Quem está dentro da água?”

O que essa brincadeira estimula

  • Vocabulário sensorial (quente, frio, duro, mole, liso, áspero).

  • Associação entre sensação e palavra.

  • Regulação emocional, quando feita com respeito às necessidades sensoriais da criança.

9. Brincar de “telefone” com objetos: qualquer coisa vira conversa

Qualquer objeto pode virar “telefone”: uma peça de bloco, um controle remoto, uma concha, um brinquedo de plástico. O importante é criar uma situação de faz de conta que convide a criança a interagir.

Como fazer

  • Pegue um objeto e leve até a orelha, dizendo:

    • “Alô? Quem está falando?”

  • Olhe para a criança, faça uma expressão curiosa.

  • Finja ouvir algo e responda:

    • “Ah, é a mamãe?”

    • “É o papai?”

    • “É o dinossauro?”

  • Ofereça o “telefone” para a criança:

    • “Quer falar?”

  • Qualquer reação (riso, olhar, aproximar o objeto da orelha, vocalizar) pode ser reforçada positivamente:

    • “Você falou com ele! Que legal!”

O que essa brincadeira estimula

  • Faz de conta, importante para o desenvolvimento simbólico.

  • Intenção comunicativa: falar para “alguém”, mesmo que seja imaginário.

  • Turnos de fala: um fala, depois o outro, ainda que com sons simples.

10. Leitura compartilhada: o livro como ponte de diálogo

Mesmo que a criança não pare sentada por muito tempo, os livros podem ser grandes aliados na comunicação.

Como fazer

  • Escolha livros com:

    • Pouco texto,

    • figuras grandes,

    • temas que a criança goste (carros, animais, comida, personagens).

  • Não se preocupe em “ler tudo”. Foque em:

    • Apontar figuras,

    • nomear objetos,

    • fazer perguntas simples: “O que é isso?”, “Quem está aqui?”.

  • Se a criança não responde verbalmente, aceite:

    • Olhar para a figura,

    • tocar a página,

    • virar o livro para a próxima imagem.

  • Use expressões como:

    • “Olha o cachorro!”

    • “O carro é grande!”

    • “Cadê o sol? Aqui!”.

O que essa brincadeira estimula

  • Atenção conjunta entre adulto, criança e livro.

  • Ampliação de vocabulário.

  • Experiência positiva com livros, o que favorece o aprendizado ao longo da vida.

Conclusão: comunicação é caminho, não corrida

Estimular a comunicação de uma criança com autismo é um processo, não uma corrida. Cada olhar a mais, cada gesto novo, cada tentativa de som são pequenas vitórias que merecem ser celebradas.

As 10 brincadeiras terapêuticas que você viu aqui não substituem o acompanhamento profissional, mas podem fortalecer o que já é feito na terapia, aproximar família e criança e transformar momentos simples em oportunidades de conexão profunda.

Lembre-se: você não precisa ser perfeito(a). Você precisa ser presente. A comunicação nasce, sobretudo, do vínculo e da sensação de que a criança é vista, respeitada e amada.

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