A comunicação é muito mais do que falar: é olhar, apontar, sorrir, pegar pela mão, levar o adulto até algo desejado, imitar sons, gestos e expressões. Para muitas crianças no Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse caminho da comunicação pode ser desafiador — mas também pode ser construído com leveza, através de brincadeiras terapêuticas.
Brincar não é “perda de tempo”: é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento. Quando o adulto entra no mundo da criança, respeita seu ritmo e transforma interesses em oportunidades de interação, a brincadeira passa a ser um espaço seguro para estimular linguagem, contato visual, turnos de conversa e vínculo.
Neste artigo, você vai conhecer 10 brincadeiras simples, adaptáveis à rotina, que podem ajudar a estimular a comunicação de forma amorosa, prática e sem pressão.
Antes das brincadeiras, é importante reconhecer as emoções de quem cuida:
Medo de “estar atrasado”: muitos pais e cuidadores temem que a criança esteja ficando para trás em relação a outras crianças.
Sentimento de impotência: tentar falar, explicar, estimular… e sentir que “nada funciona”.
Dúvidas sobre o que é certo: “Será que estou estimulando demais?”, “Será que estou forçando?”, “Será que estou fazendo algo errado?”.
Cansaço emocional: conciliar terapias, escola, rotina e ainda encontrar tempo e energia para brincar de forma intencional pode ser muito desafiador.
Medo de não ser compreendido: tanto a criança quanto o adulto podem sentir frustração por não conseguirem “se entender”.
Se você se identifica com essas dores, respire fundo: você não está sozinho(a). As brincadeiras abaixo não são fórmulas mágicas, mas são caminhos possíveis para que a comunicação floresça aos poucos, no tempo da criança.
A imitação é uma ponte importante para a comunicação. Quando o adulto imita a criança, ele mostra: “Eu te vejo, estou com você, quero entender o que você gosta”.
Observe o que a criança está fazendo: batendo um brinquedo na mesa, girando um objeto, pulando, balançando, cantarolando uma melodia…
Imite o comportamento de forma suave e respeitosa: se ela bate o carrinho no chão, você pega outro carrinho e faz o mesmo.
Use expressões faciais exageradas (olhos atentos, sorriso, surpresa) para mostrar interesse.
Aos poucos, adicione pequenas variações: se ela bate o carrinho uma vez, você bate duas; se ela gira o objeto, você gira e faz um som divertido.
Atenção compartilhada: a criança percebe que há alguém participando do que ela faz.
Início de turnos: um faz, o outro faz, criando uma “conversinha” em forma de ações.
Vínculo e segurança: a criança sente que não precisa abandonar o que gosta para estar com o adulto.
Não tente “corrigir” a brincadeira da criança logo de início. Primeiro, entre no jogo dela. Depois, pouco a pouco, vá incluindo novas possibilidades.
Brincadeiras de “cadê/achou” são ótimas para estimular linguagem, atenção e contato visual de forma leve.
Escolha um objeto que a criança goste (um carrinho, boneco, mordedor, livro).
Mostre o objeto, diga: “Olha o carrinho!” e deixe a criança tocar.
Esconda o objeto parcialmente (atrás de um paninho, debaixo de uma caixa transparente, atrás das suas costas).
Pergunte: “Cadê o carrinho?”, usando tom de voz animado e cara de surpresa.
Quando o objeto aparece, diga: “Achou!” ou “Olha aqui!” com entusiasmo.
Compreensão de linguagem (cadê, aqui, achou, olha).
Uso de gestos (apontar, olhar para o adulto, procurar com o olhar).
Turnos de comunicação (adulto pergunta, criança responde com olhar, gesto ou vocalização).
Se a criança gosta muito de alimentos específicos, bichinhos de borracha ou personagens, você pode usar esses itens para tornar a brincadeira ainda mais motivadora.
Músicas infantis com gestos são excelentes para crianças no espectro, pois combinam ritmo, repetição e previsibilidade — elementos que podem trazer conforto e facilitar a participação.
Escolha músicas simples e conhecidas, como:
“Palma, palma, palma”
“Se você está feliz, bata palmas”
“A canoa virou” (adaptando o ritmo e a letra, se necessário).
Associe gestos simples às partes da música: bater palmas, bater os pés, levantar os braços, apontar, mandar beijo.
Cante de frente para a criança, bem próximo, favorecendo o contato visual.
Faça pausas dramáticas em momentos-chave, por exemplo:
“Se você está feliz, bata…” (para, olha para a criança e espera qualquer resposta – olhar, sorriso, tentativa de bater palma, vocalização).
Reforce qualquer tentativa: “Isso! Você bateu palma!”, “Você olhou para mim!”, “Você fez o gesto!”.
Imitação motora (gestos) e, depois, imitação de sons e palavras.
Antecipação: a criança começa a prever quando virá seu “momento” na música.
Iniciativa de comunicação: muitas crianças passam a pedir “de novo” com sons, gestos ou entregando a mão do adulto.
Se a criança se incomoda com sons altos, mantenha um volume suave e observe sinais de desconforto. A ideia é que a música seja prazerosa, não invasiva.
Em vez de oferecer tudo pronto, podemos criar pequenas “faltas” na rotina para que a criança tenha a chance de pedir, indicar ou se comunicar de alguma forma.
Escolha uma atividade que a criança adore:
Soprar bolhas de sabão
Brincar de rodar no colo
Brincar de cócegas
Jogar bola
Brincar de carrinho na rampa.
Faça a atividade por alguns segundos e então pare de propósito.
Olhe para a criança, segure o objeto (ou a própria ação) e pergunte:
“Quer mais?”
Ou então use apenas a expressão facial de expectativa, aguardando.
Espere a criança reagir:
Pode ser um olhar insistente,
um sorriso,
um som (“ah”, “ãh”),
um gesto (entregar a mão, puxar o braço, apontar).
Assim que ela der qualquer sinal, retome a brincadeira dizendo:
“Quer mais? Mais bolha! Mais bola! Mais cócegas!”
Iniciativa de comunicação: a criança aprende que pode “ativar” o adulto.
Associação entre gesto/olhar e resultado: comunicar traz retorno positivo.
Primeiras palavras (em alguns casos): “mais”, “bola”, “sopra”.
Você pode usar também recursos visuais simples (como figuras com “mais” e “acabou”) para apoiar a comunicação, principalmente se a criança responde bem a imagens.
Muitas crianças com TEA se conectam fortemente com temas específicos: dinossauros, carros, blocos, personagens de desenho, animais, etc. Usar esse interesse para criar pequenas histórias é uma maneira poderosa de estimular linguagem e imaginação.
Separe alguns brinquedos que a criança goste muito (por exemplo, carrinhos e uma garagem; bichinhos e uma casinha; bonecos e uma cama).
Comece narrando ações simples, com frases curtas:
“O carro sobe a rampa.”
“O cachorrinho dorme na cama.”
“O dinossauro está comendo.”
Use voz animada, sons divertidos (“vruuum”, “grrrr”, “nham nham”) e expressões faciais ricas.
Convide a criança a participar:
“Onde o carro vai agora?”
“Quem vai dormir aqui?”
“Quem está com fome?”
Aceite qualquer forma de resposta: apontar, pegar o brinquedo, olhar, colocar o personagem em algum lugar.
Vocabulário funcional (substantivos, verbos, ações do dia a dia).
Compreensão de linguagem (“coloca aqui”, “pega o cachorro”, “faz dormir”).
Organização da sequência de eventos (primeiro sobe, depois desce; primeiro come, depois dorme).
Não se preocupe se a criança não repetir as palavras logo de início. Ouvir a narração, ver a cena acontecer e participar com gestos já é um grande passo.
Crianças no espectro muitas vezes se acostumam a ouvir instruções: “dá tchau”, “fala oi”, “senta”, “guarda o brinquedo”. Na brincadeira de troca de papéis, o adulto se coloca como quem “não sabe” e deixa a criança guiar.
Escolha uma brincadeira que a criança já conheça (montar blocos, encaixar figuras, colocar formas, montar pista de carrinho).
Finja “não saber” o que fazer:
Segure a peça “errada” de propósito,
coloque no lugar errado,
olhe para a criança com cara de dúvida.
Fale frases como:
“E agora, o que eu faço?”
“Onde eu coloco isso?”
“Assim, tá certo?”
Espere a criança reagir: muitas vezes ela vai:
Corrigir sua ação,
Pegar sua mão e mostrar onde colocar,
Fazer um som de protesto,
Rir e refazer da maneira certa.
Comunicação funcional: a criança se expressa para “consertar” algo.
Liderança na interação: ela se torna protagonista, não apenas receptora de comandos.
Habilidade social: aprender a ajudar, ensinar, demonstrar.
A comunicação também passa por aprender a fazer escolhas. Quando a criança tem oportunidades frequentes de escolher entre opções, ela vai entendendo que sua opinião importa.
Apresente duas opções claras, tanto em objetos quanto em imagens:
“Você quer suco ou água?”
“Você quer o carro azul ou o vermelho?”
“Você quer brincar de bola ou de massinha?”
Mostre as opções na mesma altura, deixando a criança olhar e explorar.
Espere alguma forma de resposta:
Olhar fixo para uma das opções,
apontar,
pegar o objeto,
vocalizar ou tentar falar a palavra.
Nomeie a escolha dela:
“Você escolheu a bola! Bola!”
“Ah, você quer o carrinho vermelho! Vermelho!”
Tomada de decisão e senso de autonomia.
Vocabulário relacionado a objetos e cores.
Respeito às preferências da criança, fortalecendo o vínculo.
Atividades sensoriais são muito importantes para crianças no TEA e podem, sim, ser usadas como momento de comunicação.
Prepare uma bandeja com diferentes texturas:
Arroz cru ou colorido,
massinha,
água morna,
espuma (sempre com supervisão),
tecidos macios ou ásperos.
Deixe a criança explorar e vá narrando as sensações:
“Molhado!”
“Macio!”
“Gelado!”
“Escorregadio!”
Observe como ela reage a cada textura e ajuste a intensidade conforme o conforto dela.
Crie pequenos jogos:
“Cadê o brinquedo escondido na massinha?”
“Vamos achar o bichinho no arroz?”
“Quem está dentro da água?”
Vocabulário sensorial (quente, frio, duro, mole, liso, áspero).
Associação entre sensação e palavra.
Regulação emocional, quando feita com respeito às necessidades sensoriais da criança.
Qualquer objeto pode virar “telefone”: uma peça de bloco, um controle remoto, uma concha, um brinquedo de plástico. O importante é criar uma situação de faz de conta que convide a criança a interagir.
Pegue um objeto e leve até a orelha, dizendo:
“Alô? Quem está falando?”
Olhe para a criança, faça uma expressão curiosa.
Finja ouvir algo e responda:
“Ah, é a mamãe?”
“É o papai?”
“É o dinossauro?”
Ofereça o “telefone” para a criança:
“Quer falar?”
Qualquer reação (riso, olhar, aproximar o objeto da orelha, vocalizar) pode ser reforçada positivamente:
“Você falou com ele! Que legal!”
Faz de conta, importante para o desenvolvimento simbólico.
Intenção comunicativa: falar para “alguém”, mesmo que seja imaginário.
Turnos de fala: um fala, depois o outro, ainda que com sons simples.
Mesmo que a criança não pare sentada por muito tempo, os livros podem ser grandes aliados na comunicação.
Escolha livros com:
Pouco texto,
figuras grandes,
temas que a criança goste (carros, animais, comida, personagens).
Não se preocupe em “ler tudo”. Foque em:
Apontar figuras,
nomear objetos,
fazer perguntas simples: “O que é isso?”, “Quem está aqui?”.
Se a criança não responde verbalmente, aceite:
Olhar para a figura,
tocar a página,
virar o livro para a próxima imagem.
Use expressões como:
“Olha o cachorro!”
“O carro é grande!”
“Cadê o sol? Aqui!”.
Atenção conjunta entre adulto, criança e livro.
Ampliação de vocabulário.
Experiência positiva com livros, o que favorece o aprendizado ao longo da vida.
Estimular a comunicação de uma criança com autismo é um processo, não uma corrida. Cada olhar a mais, cada gesto novo, cada tentativa de som são pequenas vitórias que merecem ser celebradas.
As 10 brincadeiras terapêuticas que você viu aqui não substituem o acompanhamento profissional, mas podem fortalecer o que já é feito na terapia, aproximar família e criança e transformar momentos simples em oportunidades de conexão profunda.
Lembre-se: você não precisa ser perfeito(a). Você precisa ser presente. A comunicação nasce, sobretudo, do vínculo e da sensação de que a criança é vista, respeitada e amada.
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