Meu Filho Está Sofrendo Bullying na Escola: O Que Fazer?

Quando um filho chega em casa mais calado, evita a mochila ou inventa desculpas para faltar às aulas, um alerta acende no coração de qualquer família. Para crianças e adolescentes no Transtorno do Espectro Autista (TEA), a escola pode ser um ambiente desafiador — diferenças de comunicação, sensibilidade sensorial e dificuldades nas regras sociais podem transformar situações simples em terreno fértil para o bullying. Este guia prático e acolhedor foi escrito para ajudar você a agir com segurança, estratégia e amparo emocional. Aqui, você encontrará passos concretos para reconhecer, documentar, intervir e proteger seu filho, fortalecendo a parceria entre família e escola.

Dores (com empatia)

  • Medo e culpa: “Será que falhei em proteger meu filho?” Não. O bullying é um problema coletivo que exige ação estruturada, não culpa individual.

  • Incerteza sobre o que fazer: A escola minimiza? Quem procurar? Como formalizar?

  • Impacto emocional e acadêmico: Queda no rendimento, crises, regressões, isolamento social.

  • Fadiga de combate: Cansaço de “explicar o autismo” repetidas vezes e sentir que nada muda.

  • Receio de retaliação: Medo de piorar a situação ao denunciar.

Respire: existe caminho. Vamos por partes.

1) Como Reconhecer e Documentar o Bullying

Sinais de alerta

  • Comportamentais: Evitar escola, alterações no sono ou apetite, irritabilidade ou apatia.

  • Acadêmicos: Queda abrupta nas notas, relutância em fazer deveres.

  • Físicos: Marcas, objetos danificados, falta de materiais.

  • Sociais: Isolamento, recusa em falar de colegas, medo do recreio.

No TEA, alguns sinais podem aparecer como aumento de estereotipias, hiperfoco ansioso ou mudanças sensoriais (ex.: tampando os ouvidos com mais frequência).

Documente tudo (isso é seu “colete salva-vidas”)

  • Diário de incidentes: Data, horário, local, o que aconteceu, quem estava presente, como seu filho reagiu e como o adulto responsável interveio (ou não).

  • Evidências: Fotos de danos, mensagens, bilhetes, relatórios médicos/psicológicos.

  • Comunicações oficiais: E-mails para a escola (nunca só conversas no corredor).

  • Observações do seu filho: Registre frases literais (sem corrigir) — ajudam a equipe pedagógica a compreender o contexto.

Metáfora útil: pense na documentação como o mapa e a bússola da sua jornada. Sem eles, é fácil se perder em “foi dito/ não foi dito”.

2) Como Conversar com a Escola (E Estruturar um Plano)

Antes da reunião

  • Defina objetivos claros: “Quero medidas imediatas de proteção” e “Quero um plano de prevenção”.

  • Leve um resumo de uma página: Sinais do seu filho, necessidades sensoriais, gatilhos, estratégias que funcionam.

  • Convide quem decide: Coordenação pedagógica, orientação/psicologia e o professor responsável. Se possível, leve um familiar de apoio.

Durante a reunião

  • Seja assertivo(a) e colaborativo(a): Use o registro dos incidentes e foque em soluções.

  • Peça um Plano de Intervenção por escrito, com:

    • Medidas imediatas de proteção: Supervisão em recreio e transições, mudança de lugar na sala, monitoramento em corredores.

    • Ações educativas: Roda de conversa, atividades de empatia, mediação de conflitos.

    • Apoios específicos para TEA: Sinais visuais, cantinho sensorial, previsibilidade de rotina.

    • Responsáveis e prazos: Quem faz o quê, até quando, e como será avaliado.

  • Solicite canal de acompanhamento: Reuniões quinzenais no início, registro de ocorrências e devolutivas por e-mail.

Após a reunião

  • Confirme por e-mail os acordos (resumo objetivo + próximos passos).

  • Monitore efeitos: Ajuste o plano conforme os dados das próximas semanas.

Dica de linguagem: troque “culpados” por responsabilidades e “punição” por educação e reparação. A escola tende a engajar mais quando não se sente atacada.

3) Intervenções Emocionais e Educativas com Seu Filho

Acolha primeiro, eduque depois

  • Valide: “O que você viveu é injusto. Eu acredito em você.”

  • Nomeie emoções: Use cartões visuais/ escalas (carinhas, termômetros de emoção).

  • Reforce a identidade: “Você tem valor, qualidades e direitos — nada disso muda.”

Ensine estratégias (passo a passo)

  • Scripts sociais curtos:

    • “Pare. Não gosto disso.”

    • “Vou chamar um adulto agora.”

  • Plano de fuga seguro: Para onde ir e quem procurar (mapa da escola com “pontos de segurança”).

  • Treino de assertividade com role-play: Simule situações em casa, começando por versões leves.

  • Habilidades de autorregulação: Respiração quadrada, objeto sensorial discreto, pausa programada.

Fortaleça redes de apoio

  • Amigos-âncora: Um ou dois colegas empáticos no recreio.

  • Atividades de interesse especial: Clubes/ projetos onde seu filho brilhe e seja reconhecido.

Imagem mental: construir pontes (suportes e amigos) e trilhas seguras (planos e rotas). Isso reduz a sensação de selva sem saída.

4) Quando e Como Escalar: Direitos, Órgãos e Passos Legais

Sinais de que é hora de escalar

  • A escola minimiza ou não cumpre o plano.

  • Há reincidência, gravidade (ameaças, agressões) ou danos emocionais persistentes.

  • Falta de proteção imediata em recreio/entrada/saída/corredores.

Passos de escalonamento (em ordem prática)

  1. Direção/Coordenação com novo registro escrito e prazos.

  2. Secretaria/Órgão municipal/estadual de educação (protocole formalmente).

  3. Conselho Tutelar quando há risco à integridade.

  4. Delegacia/Promotoria em casos de agressão, ameaça ou omissão grave.

  5. Advocacia especializada para orientação sobre medidas cabíveis.

O que pedir em cada instância

  • Garantia de proteção imediata, acompanhamento documentado, formação docente em inclusão e bullying, adaptações razoáveis (ambiente, rotina, comunicação).

  • Reparação educativa, não apenas punitiva, para transformar a cultura escolar.

Lembre: sua postura é de defesa de direitos e educação de qualidade — dois lados da mesma moeda.

Você não está só — e seu filho não está condenado a viver com medo. Com documentação, parceria estruturada com a escola, apoio emocional e escalonamento responsável, é possível transformar dor em proteção e aprendizado. Cada passo que você dá ensina ao seu filho que ele tem voz, valor e direitos.

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