Como Funciona a Terapia ABA e Quando Ela É Indicada

Introdução: entender a ABA sem medo e sem mito

Quando uma família recebe o diagnóstico de autismo, uma das primeiras palavras que costuma aparecer é ABA. Vem o turbilhão de dúvidas: “O que é exatamente essa terapia?”, “Será que meu filho precisa disso?”, “É algo muito rígido?”.

A Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) é uma abordagem baseada em evidências que busca ensinar habilidades importantes e reduzir comportamentos que atrapalham o desenvolvimento e o bem-estar. Mas, acima de tudo, ela precisa ser humana, respeitosa e individualizada.

Este artigo foi pensado para você, mãe, pai, cuidador ou profissional, que quer entender de forma simples como funciona a ABA na prática e em quais situações ela é realmente indicada – sem promessas milagrosas, sem linguagem complicada e com muito acolhimento.

Dores mais comuns de quem ouve falar em ABA

Antes de explicar a teoria, é importante reconhecer o que muitas famílias sentem:

  • Medo de “robotizar” a criança
    Alguns pais têm medo de que a ABA transforme a criança em alguém que só “obedece comandos”, perdendo sua espontaneidade.

  • Culpa por não saber por onde começar
    É comum pensar: “Será que estou atrasado?”, “Será que estraguei alguma coisa por não iniciar antes?”.

  • Confusão diante de tantas abordagens diferentes
    Fono, TO, psicopedagogia, ABA, integração sensorial… A sensação é de estar perdido em um “labirinto terapêutico”.

  • Preocupação com custos e intensidade da terapia
    Muitos escutam recomendações de várias horas por dia e se perguntam: “Isso é mesmo necessário?”, “É sustentável para nossa rotina e nossas finanças?”.

Se você se identifica com alguma dessas dores, respire fundo. Entender como a ABA funciona é o primeiro passo para tomar decisões mais tranquilas e alinhadas com a realidade da sua família.

1. O que é Terapia ABA, afinal? (e o que ela NÃO é)

A sigla ABA vem de Applied Behavior Analysis, ou Análise do Comportamento Aplicada.
Em palavras simples, é uma abordagem que estuda como o ambiente influencia o comportamento e utiliza esse conhecimento para promover aprendizagens e mudanças positivas.

Em vez de pensar em “certo” ou “errado”, a ABA pergunta:

  • Qual comportamento queremos aumentar? (por exemplo, pedir água, olhar para o cuidador, brincar com outra criança)

  • Qual comportamento queremos reduzir? (por exemplo, bater, morder, gritar, autoagressão)

  • O que acontece antes desse comportamento? (gatilhos)

  • O que acontece depois desse comportamento? (consequências que mantêm ou enfraquecem o comportamento)

É como montar um quebra-cabeça: entendendo o contexto, a terapeuta planeja estratégias para reforçar comportamentos desejados e enfraquecer aqueles que causam sofrimento ou prejudicam o desenvolvimento.

O que ABA NÃO é

  • Não é um “treinamento de obediência”
    ABA bem feita não é forçar a criança a obedecer. É ensinar habilidades de forma gradual, respeitosa e significativa.

  • Não é tudo igual
    Existem diferentes formas de aplicar ABA. Há modelos mais estruturados e outros mais naturais, inseridos em brincadeiras e situações do dia a dia.

  • Não é terapia só de mesa e fichas
    Embora algumas atividades possam ser feitas à mesa, ABA moderna e baseada em evidências valoriza muito o aprendizado em ambientes naturais: brincar, rotina de casa, escola, parque.

2. Como a Terapia ABA funciona na prática?

Cada programa ABA é individualizado, mas, de modo geral, segue alguns passos principais.

2.1. Avaliação inicial

Antes de começar, o profissional faz uma avaliação detalhada, que pode incluir:

  • histórico da criança (gestação, desenvolvimento, saúde);

  • habilidades já presentes (comunicação, socialização, brincar, autonomia);

  • comportamentos que preocupam a família;

  • observação no ambiente (casa, clínica, escola).

Essa etapa é essencial para que o plano de intervenção não seja genérico, e sim adequado à realidade daquela criança e daquela família.

2.2. Definição de objetivos claros

Depois da avaliação, são definidos objetivos específicos, como por exemplo:

  • aumentar a comunicação funcional (aprender a pedir algo, usar figuras, gestos ou palavras);

  • desenvolver habilidades sociais (brincar com outras crianças, esperar a vez, dividir brinquedos);

  • treinar habilidades de vida diária (vestir-se, escovar dentes, usar o banheiro);

  • reduzir comportamentos que trazem risco ou grande sofrimento (autoagressão, fuga, crises intensas).

Esses objetivos precisam ser mensuráveis. Em vez de “melhorar a comunicação”, por exemplo, pode-se definir:
“Aprender a pedir água usando uma palavra, gesto ou figura em 4 de 5 oportunidades”.

2.3. Ensino estruturado + oportunidades naturais

Na ABA, o ensino acontece de duas formas principais:

  1. Ensino estruturado

    • São momentos planejados, com atividades específicas.

    • A terapeuta apresenta um estímulo (“mostra o copo”), a criança responde (“água”, ou mostra um cartão), e há uma consequência (“recebe o copo com água”).

    • Usa-se muito o reforço positivo: elogios, brinquedos, tempo extra na atividade preferida.

  2. Ensino em ambiente natural

    • As oportunidades surgem na rotina: na hora do lanche, do banho, da brincadeira.

    • Em vez de “treinar” apenas na mesa, o profissional aproveita situações reais para ensinar: pedir ajuda, fazer escolhas, recusar algo, esperar.

Essa combinação de estrutura + naturalidade ajuda a criança a generalizar o que aprende, ou seja, usar as habilidades em diferentes lugares e com diferentes pessoas.

2.4. Registro de dados e ajustes constantes

Um ponto central da ABA é o registro de dados.
Os profissionais anotam:

  • quantas vezes uma habilidade foi realizada;

  • quantas vezes o comportamento desafiador apareceu;

  • em quais situações as coisas funcionaram melhor ou pior.

Com isso, o plano não fica “engessado”. Ele é revisto e ajustado conforme a criança avança.
Se uma estratégia não está funcionando, o profissional não insiste cegamente: ele muda a rota.

3. Quando a Terapia ABA é indicada? (e quando é preciso cuidado)

ABA é considerada uma abordagem com forte base científica para o autismo, especialmente para:

  • crianças com atrasos importantes na comunicação e linguagem;

  • crianças que apresentam comportamentos desafiadores que atrapalham o aprendizado ou colocam em risco (agressões, autoagressões, fugas);

  • crianças que têm dificuldade em aprender por meios tradicionais e precisam de ensino mais sistemático e passo a passo.

Alguns exemplos de indicação

  • Seu filho não consegue pedir o que quer e acaba chorando ou gritando → ABA pode trabalhar comunicação funcional (com palavras, sinais, figuras, comunicação alternativa etc.).

  • A criança tem crises intensas sempre que uma rotina muda → ABA pode ajudar a preparar antecipações visuais, treinar tolerância a pequenas mudanças e reforçar comportamentos mais adaptativos.

  • A escola relata que a criança não permanece em atividade, levanta, corre, não acompanha a turma → ABA pode trabalhar atenção compartilhada, seguir instruções simples, participar de atividades em grupo.

Quando é preciso cuidado?

  • Se a abordagem é rígida demais, sem respeitar o limite sensorial e emocional da criança.

  • Se o foco é apenas “fazer a criança parecer típica”, sem considerar sua identidade autista.

  • Se a terapia não envolve a família, explicando o que está sendo feito e por quê.

  • Se o profissional não aceita questionamentos e apresenta ABA como “a única verdade”.

Terapia ABA de qualidade é aquela que anda de mãos dadas com o respeito, o afeto e a escuta da criança e da família.

4. Papel da família e da escola na Terapia ABA

ABA não deve ficar “presa” à sala do terapeuta. Para ter impacto real, ela precisa se conectar com o mundo da criança.

4.1. Família como parceira, não espectadora

Quando a família participa, o progresso tende a ser maior. Isso significa:

  • aprender estratégias simples para aplicar no dia a dia (por exemplo, dar escolhas, reforçar tentativas de comunicação, usar rotinas visuais);

  • entender por que certos comportamentos acontecem, reduzindo a culpa e substituindo a punição por estratégias mais eficazes e empáticas;

  • alinhar expectativas: nem tudo vai acontecer rápido, mas pequenos avanços são grandes conquistas.

4.2. Escola como ambiente de generalização

Se a criança frequenta a escola, é fundamental que haja diálogo entre equipe terapêutica e equipe escolar:

  • compartilhar objetivos principais (ex.: sentar por alguns minutos, pedir ajuda, esperar a vez);

  • adaptar atividades e instruções para facilitar a participação;

  • criar estratégias comuns (mesmos sinais, mesmos combinados visuais).

Quando todos falam a “mesma língua”, a criança se sente mais segura e as habilidades aprendidas em terapia ganham vida real.

Conclusão: ABA é ferramenta, não rótulo

A Terapia ABA, quando bem aplicada, é uma ferramenta poderosa para promover desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida para pessoas autistas.
Não é milagre, não é fórmula mágica, e muito menos uma forma de apagar a identidade da criança. É um caminho para abrir portas, ampliar repertórios e diminuir sofrimentos.

Se você está considerando ABA para seu filho ou paciente, pergunte, questione, busque profissionais qualificados e, principalmente, observe se a criança está sendo respeitada. A melhor terapia é aquela em que ela aprende, mas também se sente vista, acolhida e segura.

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