Quando uma família recebe o diagnóstico de autismo, uma das primeiras palavras que costuma aparecer é ABA. Vem o turbilhão de dúvidas: “O que é exatamente essa terapia?”, “Será que meu filho precisa disso?”, “É algo muito rígido?”.
A Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) é uma abordagem baseada em evidências que busca ensinar habilidades importantes e reduzir comportamentos que atrapalham o desenvolvimento e o bem-estar. Mas, acima de tudo, ela precisa ser humana, respeitosa e individualizada.
Este artigo foi pensado para você, mãe, pai, cuidador ou profissional, que quer entender de forma simples como funciona a ABA na prática e em quais situações ela é realmente indicada – sem promessas milagrosas, sem linguagem complicada e com muito acolhimento.
Antes de explicar a teoria, é importante reconhecer o que muitas famílias sentem:
Medo de “robotizar” a criança
Alguns pais têm medo de que a ABA transforme a criança em alguém que só “obedece comandos”, perdendo sua espontaneidade.
Culpa por não saber por onde começar
É comum pensar: “Será que estou atrasado?”, “Será que estraguei alguma coisa por não iniciar antes?”.
Confusão diante de tantas abordagens diferentes
Fono, TO, psicopedagogia, ABA, integração sensorial… A sensação é de estar perdido em um “labirinto terapêutico”.
Preocupação com custos e intensidade da terapia
Muitos escutam recomendações de várias horas por dia e se perguntam: “Isso é mesmo necessário?”, “É sustentável para nossa rotina e nossas finanças?”.
Se você se identifica com alguma dessas dores, respire fundo. Entender como a ABA funciona é o primeiro passo para tomar decisões mais tranquilas e alinhadas com a realidade da sua família.
A sigla ABA vem de Applied Behavior Analysis, ou Análise do Comportamento Aplicada.
Em palavras simples, é uma abordagem que estuda como o ambiente influencia o comportamento e utiliza esse conhecimento para promover aprendizagens e mudanças positivas.
Em vez de pensar em “certo” ou “errado”, a ABA pergunta:
Qual comportamento queremos aumentar? (por exemplo, pedir água, olhar para o cuidador, brincar com outra criança)
Qual comportamento queremos reduzir? (por exemplo, bater, morder, gritar, autoagressão)
O que acontece antes desse comportamento? (gatilhos)
O que acontece depois desse comportamento? (consequências que mantêm ou enfraquecem o comportamento)
É como montar um quebra-cabeça: entendendo o contexto, a terapeuta planeja estratégias para reforçar comportamentos desejados e enfraquecer aqueles que causam sofrimento ou prejudicam o desenvolvimento.
Não é um “treinamento de obediência”
ABA bem feita não é forçar a criança a obedecer. É ensinar habilidades de forma gradual, respeitosa e significativa.
Não é tudo igual
Existem diferentes formas de aplicar ABA. Há modelos mais estruturados e outros mais naturais, inseridos em brincadeiras e situações do dia a dia.
Não é terapia só de mesa e fichas
Embora algumas atividades possam ser feitas à mesa, ABA moderna e baseada em evidências valoriza muito o aprendizado em ambientes naturais: brincar, rotina de casa, escola, parque.
Cada programa ABA é individualizado, mas, de modo geral, segue alguns passos principais.
Antes de começar, o profissional faz uma avaliação detalhada, que pode incluir:
histórico da criança (gestação, desenvolvimento, saúde);
habilidades já presentes (comunicação, socialização, brincar, autonomia);
comportamentos que preocupam a família;
observação no ambiente (casa, clínica, escola).
Essa etapa é essencial para que o plano de intervenção não seja genérico, e sim adequado à realidade daquela criança e daquela família.
Depois da avaliação, são definidos objetivos específicos, como por exemplo:
aumentar a comunicação funcional (aprender a pedir algo, usar figuras, gestos ou palavras);
desenvolver habilidades sociais (brincar com outras crianças, esperar a vez, dividir brinquedos);
treinar habilidades de vida diária (vestir-se, escovar dentes, usar o banheiro);
reduzir comportamentos que trazem risco ou grande sofrimento (autoagressão, fuga, crises intensas).
Esses objetivos precisam ser mensuráveis. Em vez de “melhorar a comunicação”, por exemplo, pode-se definir:
“Aprender a pedir água usando uma palavra, gesto ou figura em 4 de 5 oportunidades”.
Na ABA, o ensino acontece de duas formas principais:
Ensino estruturado
São momentos planejados, com atividades específicas.
A terapeuta apresenta um estímulo (“mostra o copo”), a criança responde (“água”, ou mostra um cartão), e há uma consequência (“recebe o copo com água”).
Usa-se muito o reforço positivo: elogios, brinquedos, tempo extra na atividade preferida.
Ensino em ambiente natural
As oportunidades surgem na rotina: na hora do lanche, do banho, da brincadeira.
Em vez de “treinar” apenas na mesa, o profissional aproveita situações reais para ensinar: pedir ajuda, fazer escolhas, recusar algo, esperar.
Essa combinação de estrutura + naturalidade ajuda a criança a generalizar o que aprende, ou seja, usar as habilidades em diferentes lugares e com diferentes pessoas.
Um ponto central da ABA é o registro de dados.
Os profissionais anotam:
quantas vezes uma habilidade foi realizada;
quantas vezes o comportamento desafiador apareceu;
em quais situações as coisas funcionaram melhor ou pior.
Com isso, o plano não fica “engessado”. Ele é revisto e ajustado conforme a criança avança.
Se uma estratégia não está funcionando, o profissional não insiste cegamente: ele muda a rota.
ABA é considerada uma abordagem com forte base científica para o autismo, especialmente para:
crianças com atrasos importantes na comunicação e linguagem;
crianças que apresentam comportamentos desafiadores que atrapalham o aprendizado ou colocam em risco (agressões, autoagressões, fugas);
crianças que têm dificuldade em aprender por meios tradicionais e precisam de ensino mais sistemático e passo a passo.
Seu filho não consegue pedir o que quer e acaba chorando ou gritando → ABA pode trabalhar comunicação funcional (com palavras, sinais, figuras, comunicação alternativa etc.).
A criança tem crises intensas sempre que uma rotina muda → ABA pode ajudar a preparar antecipações visuais, treinar tolerância a pequenas mudanças e reforçar comportamentos mais adaptativos.
A escola relata que a criança não permanece em atividade, levanta, corre, não acompanha a turma → ABA pode trabalhar atenção compartilhada, seguir instruções simples, participar de atividades em grupo.
Se a abordagem é rígida demais, sem respeitar o limite sensorial e emocional da criança.
Se o foco é apenas “fazer a criança parecer típica”, sem considerar sua identidade autista.
Se a terapia não envolve a família, explicando o que está sendo feito e por quê.
Se o profissional não aceita questionamentos e apresenta ABA como “a única verdade”.
Terapia ABA de qualidade é aquela que anda de mãos dadas com o respeito, o afeto e a escuta da criança e da família.
ABA não deve ficar “presa” à sala do terapeuta. Para ter impacto real, ela precisa se conectar com o mundo da criança.
Quando a família participa, o progresso tende a ser maior. Isso significa:
aprender estratégias simples para aplicar no dia a dia (por exemplo, dar escolhas, reforçar tentativas de comunicação, usar rotinas visuais);
entender por que certos comportamentos acontecem, reduzindo a culpa e substituindo a punição por estratégias mais eficazes e empáticas;
alinhar expectativas: nem tudo vai acontecer rápido, mas pequenos avanços são grandes conquistas.
Se a criança frequenta a escola, é fundamental que haja diálogo entre equipe terapêutica e equipe escolar:
compartilhar objetivos principais (ex.: sentar por alguns minutos, pedir ajuda, esperar a vez);
adaptar atividades e instruções para facilitar a participação;
criar estratégias comuns (mesmos sinais, mesmos combinados visuais).
Quando todos falam a “mesma língua”, a criança se sente mais segura e as habilidades aprendidas em terapia ganham vida real.
A Terapia ABA, quando bem aplicada, é uma ferramenta poderosa para promover desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida para pessoas autistas.
Não é milagre, não é fórmula mágica, e muito menos uma forma de apagar a identidade da criança. É um caminho para abrir portas, ampliar repertórios e diminuir sofrimentos.
Se você está considerando ABA para seu filho ou paciente, pergunte, questione, busque profissionais qualificados e, principalmente, observe se a criança está sendo respeitada. A melhor terapia é aquela em que ela aprende, mas também se sente vista, acolhida e segura.
💬 Agora eu quero saber de você:
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