Meu Filho Não Gosta de Comer: Entendendo a Seletividade Alimentar no TEA

Para muitas famílias, a hora da refeição é um momento de conexão, conversa e rotina. Mas, para pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse momento pode ser sinônimo de tensão, choro e preocupação.
Talvez você perceba que seu filho só aceite “as mesmas” comidas: um tipo específico de iogurte, uma marca de biscoito, o arroz sem misturas, o macarrão “sem molhinho”, sempre do mesmo jeito, no mesmo prato.

Isso não é “manha” nem “frescura”. Em crianças autistas, é muito comum a presença de seletividade alimentar, um padrão de alimentação marcado por restrições importantes de textura, cor, temperatura, tipo de alimento e até forma de apresentação.

Neste artigo, vamos conversar de forma clara e acolhedora sobre:

  • por que a seletividade alimentar é tão comum no TEA,

  • quais sinais merecem atenção,

  • como a família pode ajudar na prática,

  • quando é hora de buscar apoio profissional.

O objetivo não é culpar ninguém, mas informar, acolher e oferecer caminhos possíveis.

Dores: o que os pais sentem quando o filho “não come”

Antes de falar de estratégias, precisamos falar de sentimentos. Muitos pais descrevem a seletividade alimentar do filho com TEA como uma das maiores fontes de ansiedade no dia a dia. Algumas dores comuns:

  • Medo de desnutrição ou falta de vitaminas: “Será que meu filho está se alimentando o suficiente para crescer saudável?”

  • Culpa e autocrítica: “Onde foi que eu errei? Será que fui permissivo demais?”

  • Pressão da família e de outras pessoas: “Na minha época ninguém fazia escolha de comida”, “Isso é falta de limite”, “Se tivesse fome, comia”.

  • Conflitos nas refeições: refeições longas, cansativas, com choros, recusas, negociações e chantagens emocionais dos dois lados.

  • Cansaço emocional: a sensação de viver em torno da pergunta “o que ele vai aceitar comer hoje?”.

É importante reconhecer:
👉 Você não é um pai ou mãe “ruim” porque seu filho tem seletividade alimentar.
👉 A seletividade alimentar no TEA é um fenômeno complexo, que envolve neurodesenvolvimento, sensorialidade, comportamento e, muitas vezes, questões emocionais.

A partir daqui, vamos organizar o tema em 4 pontos centrais, para que você entenda o “porquê” e o “como ajudar”.

1. O que é seletividade alimentar no TEA (e o que não é)

A seletividade alimentar é mais do que “gostar de algumas comidas” – algo que qualquer criança pode ter. No TEA, estamos falando de:

  • Repertório alimentar muito restrito (poucos alimentos aceitos).

  • Preferência exagerada por texturas específicas (só crocante, só pastoso, só líquido).

  • Recusa por alimentos com cheiro, cor ou aspecto diferentes do habitual.

  • Dependência de marcas específicas (aquele mesmo biscoito, daquele mesmo pacote).

  • Dificuldade em aceitar que o alimento seja preparado ou servido de outro jeito.

Enquanto uma criança sem TEA pode “torcer o nariz” para brócolis, mas comer quando está com fome, a criança autista pode simplesmente não conseguir comer aquele alimento, pois o desconforto sensorial ou emocional é muito intenso.

É importante diferenciar:

  • Seletividade alimentar: a criança come pouco variado, mas ainda tem alguns grupos alimentares presentes (arroz, massas, leite, frutas específicas etc.).

  • Recusa alimentar grave / risco nutricional: quando há perda de peso, baixo ganho de crescimento, sinais de doença, ou restrições tão severas que entram no campo de transtornos como ARFID (Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo), que exige acompanhamento próximo.

Nem todo caso de seletividade alimentar é grave, mas todos merecem olhar atento, justamente porque podem impactar crescimento, energia, humor e participação social.

2. Por que a seletividade alimentar é tão comum no autismo?

Existem vários fatores que ajudam a explicar a seletividade alimentar no TEA. Alguns dos mais frequentes:

a) Alterações sensoriais

Muitas crianças com TEA têm hipersensibilidade ou hipossensibilidade a estímulos: sons, luz, toque… e também sabores, cheiros e texturas.

  • Um alimento “comum” para a maioria pode ser “forte demais” em cheiro para a criança autista.

  • A textura de purê, o “mole” da banana, o fio da carne, o grão do feijão podem ser altamente desconfortáveis.

  • O barulho de mastigação, o cheiro da comida, a mistura de alimentos no prato podem gerar sobrecarga sensorial.

Para essa criança, comer não é só “mastigar e engolir”: é enfrentar uma verdadeira tempestade sensorial.

b) Rigidez e necessidade de previsibilidade

Pessoas autistas podem apresentar padrões de comportamento mais rígidos, necessidade de rotina e dificuldade com mudanças. A comida entra nesse pacote:

  • Comer “sempre a mesma coisa” traz sensação de segurança e controle.

  • Um prato apresentado de maneira diferente pode ser percebido como “novo” e ameaçador.

  • Mudanças súbitas geram ansiedade: “Se ontem o arroz era branco, por que hoje está com pedacinhos verdes?”

Assim, manter a alimentação igual é uma forma de se proteger do imprevisível.

c) Experiências anteriores negativas

Se a criança já passou por:

  • episódios de engasgo,

  • refluxo doloroso,

  • vômitos repetidos,

  • ou situações em que foi forçada a comer,

ela pode associar a comida ou o ato de comer a medo, dor e desconforto.
O corpo aprende: “se eu evitar isso, eu fico seguro”.

d) Aspectos emocionais e contextuais

Ambientes muito barulhentos, pressa, cobranças, discussões à mesa, pressão para “comer tudo” podem piorar a recusa alimentar.
A criança percebe que a hora da refeição é um momento de tensão, e isso aumenta a resistência.

Em resumo: a seletividade alimentar no TEA é um fenômeno multi-fatorial. Entender essas camadas ajuda você a olhar para seu filho com mais compaixão — e a buscar estratégias mais respeitosas.

3. Sinais de alerta: quando a seletividade exige atenção profissional

Nem toda seletividade alimentar é uma emergência, mas alguns sinais indicam que é hora de buscar ajuda especializada (pediatra, nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo):

  • Perda de peso ou crescimento abaixo do esperado na curva pediátrica.

  • Cansaço extremo, queda de cabelo, pele muito seca, feridas na boca ou outros sinais de possível déficit nutricional.

  • Alimentação limitada a pouquíssimos alimentos (por exemplo: só leite, pão e bolacha).

  • Recusa em mastigar ou dificuldade para engolir.

  • Vômitos frequentes, engasgos repetidos, muito medo de engolir.

  • Comportamentos extremos na hora da refeição (crises intensas, fuga, agressividade).

Se você reconhecer alguns desses pontos, o passo mais importante é não enfrentar isso sozinho(a):

  • Marque consulta com o pediatra para avaliação geral.

  • Procure um nutricionista infantil, preferencialmente com experiência em TEA, para analisar o cardápio e ajustar a alimentação.

  • Um fonoaudiólogo pode avaliar questões orais (mastigação, deglutição).

  • Um terapeuta ocupacional com foco em integração sensorial pode ajudar a trabalhar as questões sensoriais que influenciam a alimentação.

Lembre-se: pedir ajuda não é sinal de fraqueza, e sim de cuidado e responsabilidade.

4. Como ajudar na prática: estratégias respeitosas para o dia a dia

Aqui vão algumas estratégias que, usadas de forma consistente e amorosa, podem ajudar a tornar a alimentação mais tranquila e, aos poucos, mais variada.

4.1. Comece pela segurança, não pela variedade

Antes de exigir mudanças radicalmente, é importante garantir que a criança se sinta segura à mesa.
Algumas ideias:

  • Mantenha sempre pelo menos um alimento preferido no prato, aquele que você sabe que ela costuma aceitar.

  • Evite transformar a refeição em campo de batalha: gritos, ameaças (“se não comer, não vai…”) e chantagens tendem a piorar a recusa.

  • Ofereça porções pequenas: um pedacinho, uma colher, um “grãozinho” novo ao lado do que ela já conhece.

A lógica é: primeiro a criança precisa sentir que a mesa é um lugar de cuidado, não de medo.

4.2. Trabalhe com exposições graduais

Pense em “aproximar” a criança dos novos alimentos em etapas, sem pular direto para “tem que comer”:

  1. Ver o alimento no ambiente (na mesa, no prato dos pais).

  2. Cheirar e observar de perto.

  3. Tocar com as mãos, amassar, brincar (quando adequado).

  4. Levar até a boca e cuspir, se necessário.

  5. Experimentar pequenas quantidades.

Cada pequena aproximação é uma vitória. Para muitas crianças com TEA, o caminho até aceitar um novo alimento é longo — mas possível.

4.3. Use o interesse da criança a seu favor

Crianças autistas costumam ter interesses especiais ou fixações por temas ou personagens. Você pode usar isso como aliado:

  • Pratos, talheres, copos com personagens que ela gosta.

  • Formatos divertidos: arroz em formato de coração, legumes cortados em estrelas.

  • Histórias e brincadeiras: “Vamos ver se o super-herói consegue energia com esse pedacinho de cenoura?”

Não se trata de “enganar” a criança, mas de tornar o momento mais lúdico e menos ameaçador.

4.4. Rotina previsível e ambiente tranquilo

  • Estabeleça horários relativamente fixos para as refeições.

  • Evite telas (TV, celular) como única forma de fazer a criança comer — elas podem “desligar” a percepção de saciedade e dificultar a conexão com o momento da refeição.

  • Reduza distrações sensoriais: barulho excessivo, luz muito forte, cheiros fortes na cozinha.

  • Avise com antecedência: “Daqui a 10 minutos vamos almoçar, tudo bem?” – e, se possível, use rotinas visuais (figuras mostrando as etapas: lavar as mãos, sentar, comer, escovar os dentes).

4.5. Cuide de você também

Você faz o melhor que pode com as ferramentas que tem hoje.
Cuidar de uma criança com TEA, especialmente com desafios na alimentação, é intenso e cansativo. Sempre que possível:

  • Compartilhe a responsabilidade com outros familiares.

  • Converse com profissionais e grupos de apoio.

  • Permita-se descansar, mesmo que seja por alguns minutos.

Uma mãe/pai minimamente cuidado tem mais recursos emocionais para lidar com o dia a dia da seletividade alimentar.

Conclusão: seu filho não é “difícil”, ele é sensível – e isso merece respeito

Se seu filho “não gosta de comer” e tem um repertório alimentar bem limitado, isso não quer dizer que você falhou, que seu filho é “malcriado” ou que ele está assim porque “mandam demais na casa”.

Na maioria dos casos, estamos diante de um conjunto de fatores:

  • sensoriais,

  • emocionais,

  • comportamentais,

  • e de desenvolvimento,

que fazem da alimentação um grande desafio para a criança.

A boa notícia é que há caminhos possíveis. Com informação, apoio profissional e estratégias respeitosas, muitas famílias conseguem:

  • reduzir conflitos à mesa,

  • ampliar aos poucos o repertório alimentar,

  • e transformar a refeição em um momento mais leve.

Se este texto te ajudou de alguma forma, deixe um comentário contando sua experiência, compartilhe com outras famílias e, se sentir necessidade, converse com um profissional de confiança. Você não está sozinho(a) nessa jornada. 💙