Cuidar de uma criança autista é um ato diário de amor. Mas amor nenhum foi feito para caminhar sozinho e sem descanso. Quando a rotina se torna uma sequência de terapias, consultas, adaptações e preocupações constantes, é muito fácil que o cuidador esqueça de si mesmo — até que o corpo e a mente comecem a cobrar a conta.
Este artigo é um convite para você respirar. Vamos falar sobre sobrecarga parental, especialmente no contexto do autismo, e sobre como encontrar, de forma realista, espaços de cuidado para você mesmo(a) — sem culpa, sem romantização e com acolhimento.
Antes de falar de soluções, precisamos reconhecer o peso que você carrega. Pais e cuidadores de crianças autistas costumam enfrentar:
Cansaço físico extremo: sono interrompido, rotinas intensas, deslocamentos para terapias, escola, consultas.
Sobrecarga mental: preocupação constante com o desenvolvimento, comportamento, inclusão escolar, futuro e segurança da criança.
Culpa por qualquer pausa: sensação de que, se você descansa, está “desistindo” ou sendo egoísta.
Sensação de solidão: familiares que não entendem, julgamentos de pessoas que não conhecem o TEA, comentários capacitistas.
Medo de falhar: cobrança interna para ser o “pai/mãe perfeito”, que dá conta de tudo, o tempo todo.
Se você se identifica com isso, não significa fraqueza. Significa apenas que você é humano. E humanos precisam de limites, pausas e cuidado.
A partir de agora, vamos organizar esse tema em 4 passos práticos para sair do modo “sobrevivência” e caminhar em direção a uma rotina mais leve e sustentável.
Muitos pais só percebem a sobrecarga quando o corpo já “trava”: crises de choro, explosões de irritabilidade, sensação de vazio, adoecimento frequente. Por isso, o primeiro passo é aprender a ler os sinais.
Dor de cabeça constante
Tensão muscular (principalmente pescoço, ombros e costas)
Insônia ou sono agitado
Cansaço que não passa mesmo após dormir
Alterações no apetite (comer demais ou quase nada)
Irritabilidade com coisas pequenas
Sensação de estar “no automático”
Perda de interesse por coisas que antes davam prazer
Choro fácil ou vontade de desaparecer por alguns minutos
Pensamentos como “não dou conta”, “meu filho merece alguém melhor”
Esses sinais não são frescura. São avisos. É como se seu corpo dissesse:
“Eu estou tentando cuidar de tudo, mas agora eu também preciso ser cuidado.”
Se você se reconhece nessas descrições, não é motivo para desespero — é um ponto de partida. A partir desse reconhecimento, fica mais fácil ajustar rotas, pedir ajuda e construir mudanças.
Uma das maiores fontes de sobrecarga parental não está apenas na rotina, mas nas expectativas irreais que os pais colocam sobre si mesmos.
No contexto do autismo, isso pode aparecer assim:
Querer aplicar todas as estratégias que vê na internet, todos os dias.
Achar que, se o filho não evolui rápido, é porque você falhou.
Comparar seu filho com outras crianças autistas que parecem “mais avançadas”.
Sentir que precisa dizer “sim” a todas as demandas da escola, terapeutas, família.
Pense em você como um copinho de água.
Cada demanda do dia (crise sensorial, reunião na escola, preparar a rotina visual, cuidar da casa, trabalhar) é alguém bebendo um pouco desse copo.
Se você não tiver momentos para encher o copo novamente, em algum momento ele seca. E um copo vazio não pode matar a sede de ninguém.
Algumas frases podem ajudar a ajustar a forma como você se trata:
Em vez de “eu tenho que dar conta de tudo” → “eu farei o melhor possível dentro do que é humano para mim hoje”.
Em vez de “se eu descansar, meu filho vai ficar para trás” → “um cuidador exausto não consegue oferecer o que meu filho precisa a longo prazo”.
Em vez de “ninguém entende como é difícil” → “posso buscar pessoas e grupos que compreendam minha realidade”.
Aceitar que você não é perfeito não diminui o amor de forma alguma. Pelo contrário: permite que esse amor dure mais tempo, de forma mais saudável.
Quando alguém fala em autocuidado, muitos pais pensam em spa, viagens, longos momentos de lazer. Isso parece tão distante da realidade que gera até irritação.
Mas autocuidado, na vida real de quem cuida de uma criança autista, é muito mais sobre micro pausas do que sobre grandes escapadas.
Você não precisa de duas horas livres. Muitas vezes, começa com 2 a 5 minutos:
Respiração consciente no banheiro: trancar a porta por 2 minutos, respirar profundamente, relaxar os ombros, alongar o pescoço.
Chá ou café com presença: tomar sua bebida preferida sem mexer no celular, apenas sentindo o sabor e o calor.
Banho um pouco mais demorado (quando possível): usar esse tempo como um mini ritual de cuidado, não apenas higiene.
Ouvir uma música que você ama enquanto arruma a casa ou lava louça.
Escrever 3 frases em um caderno: algo pelo qual você é grato(a) hoje, mesmo que seja pequeno.
Parece pouco. Mas esses micro momentos funcionam como pequenas “análises de oxigênio” emocionais que evitam o colapso.
Uma forma prática de conseguir tempo para si é ancorar o autocuidado em momentos previsíveis da rotina do seu filho:
Enquanto a criança está em terapia (e está sendo acompanhada por um profissional), use parte desse tempo para cuidar de você em vez de resolver sempre pendências.
Durante um vídeo, desenho ou atividade preferida da criança, use 5–10 minutos para alongar, meditar, ler uma página de um livro ou simplesmente descansar.
Combine com o parceiro(a) ou outro cuidador “trocas de turno”, em que um cuida e o outro tem um tempo estruturado para si.
Autocuidado não é um luxo. É uma estratégia de sobrevivência emocional.
Muitos pais de crianças autistas sentem vergonha ou culpa de pedir ajuda. Pensam:
“Ninguém vai fazer tão bem quanto eu.”
“Já estão cansados de ouvir sobre isso.”
“Eu que decidi ser pai/mãe, o problema é meu.”
Mas criar uma criança, com ou sem TEA, nunca foi um projeto para ser feito em isolamento.
Família e amigos próximos: talvez alguns não entendam o autismo em detalhes, mas podem ajudar com tarefas práticas (mercado, levar em uma terapia, ficar com a criança por 30 minutos).
Grupos de apoio a famílias atípicas (presenciais ou online): ouvir outras histórias parecidas com a sua traz alívio, acolhimento e ideias concretas.
Profissionais de saúde mental: psicólogos, psiquiatras ou terapeutas podem ajudar a lidar com culpa, cansaço extremo, ansiedade e depressão.
Escola e equipe terapêutica: quando existe diálogo, eles podem colaborar para tornar a rotina menos pesada, ajustando expectativas e planejando em conjunto.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é sinal de estratégia.
Você não está “transferindo problema”, está criando condições para continuar cuidando.
Também faz parte de se proteger dizer alguns “nãos”:
Não a conselhos invasivos e sem empatia.
Não a convites que desrespeitam os limites sensoriais ou emocionais da criança.
Não a pessoas que só criticam, mas nunca oferecem apoio real.
Você tem o direito de escolher com quem gasta sua energia. E isso é uma forma poderosa de autocuidado.
Cuidar de uma criança autista exige energia, presença e dedicação. Mas isso não significa que sua identidade deva se resumir a “mãe de…” ou “pai de…”. Você é uma pessoa inteira, com corpo, mente, emoções, sonhos e limites.
Evitar a sobrecarga parental não é abandonar o seu filho. É justamente o contrário:
é criar condições para que você esteja ao lado dele por mais tempo, com mais saúde e com mais qualidade de presença.
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