Se você cuida de uma criança, adolescente ou adulto autista, provavelmente já ouviu frases como: “Você é forte demais”, “Eu não sei como você dá conta” ou “Deus só dá uma batalha dessas para quem aguenta”.
Essas frases até podem vir com boa intenção, mas escondem uma verdade dura: quem cuida, também cansa. E cansa muito.
O cuidado diário com uma pessoa no Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige atenção constante, adaptações, vigilância, trabalho emocional e físico intenso. Com o tempo, isso pode levar a exaustão, estresse crônico e até adoecimento – especialmente quando o cuidador coloca todas as necessidades da outra pessoa em primeiro lugar e esquece completamente das suas.
Este artigo é um convite para você, cuidador ou cuidadora, reconhecer o próprio cansaço sem culpa, entender que isso não é fraqueza e descobrir caminhos práticos para se cuidar enquanto continua cuidando de quem você ama.
Antes de falar de soluções, é importante nomear as dores que muitos cuidadores vivem em silêncio:
Culpa por sentir cansaço: “Eu não posso reclamar, quem sofre é ele/ela.”
Sensação de nunca descansar de verdade: mesmo quando está sentado, a mente continua ligada em preocupações, rotinas e crises que podem acontecer.
Falta de apoio da família ou rede social: muitas vezes, uma pessoa assume quase tudo sozinha.
Medo de “falhar” como cuidador(a): qualquer irritação, impaciência ou vontade de chorar é vista como sinal de incompetência.
Isolamento social: amigos se afastam, convites diminuem, a rotina de terapias e escola parece ocupar todos os espaços da vida.
Desgaste emocional e físico: dores no corpo, insônia, irritabilidade, ansiedade, sensação de estar “no automático”.
Se você se reconhece em algum desses pontos, respira fundo: você não está sozinho(a). O que você sente é legítimo, humano e merece cuidado.
A seguir, vamos organizar esse tema em 4 etapas para te ajudar a entender o que está acontecendo e o que pode ser feito, passo a passo.
O primeiro passo para lidar com o cansaço que domina é aceitar que ele existe – sem se julgar.
Muita gente que cuida de uma pessoa autista cria a ideia de que precisa ser forte o tempo todo. Mas força não é ausência de fragilidade, e sim a capacidade de pedir ajuda, ajustar rotas e buscar apoio quando necessário.
Algumas reflexões importantes:
Você não é uma máquina.
Você não nasceu sabendo ser cuidador(a). Você está aprendendo, todos os dias.
Amor não anula cansaço. É possível amar profundamente e, ainda assim, estar exausto(a).
Uma metáfora simples ajuda aqui: em um avião, a orientação é clara – primeiro você coloca a máscara de oxigênio em você, depois em quem está ao seu lado. Isso não é egoísmo, é sobrevivência. No cuidado diário, é a mesma lógica: se você desaba, todo o sistema ao redor sofre.
Exercício rápido:
Pergunte a si mesmo: “Se uma pessoa querida vivesse o que eu vivo hoje, eu diria que ela tem direito de descansar?”
Se a resposta for sim, então você também tem.
Existe o cansaço normal de quem teve um dia cheio e existe um tipo de cansaço que é sinal de alerta. Esse cansaço profundo, constante, pode ser um indício de estresse crônico ou até de burnout do cuidador.
Fique atento(a) a sinais como:
Cansaço que não melhora com sono ou descanso pontual.
Irritabilidade aumentada: qualquer coisa vira motivo para explosão ou choro.
Dificuldade de concentração: esquecimentos, confusão mental, sensação de estar “desligado”.
Insônia ou sono excessivo: problemas para dormir ou vontade de dormir o tempo todo.
Perda de prazer em coisas que antes fazia bem: hobbies, conversas, momentos simples.
Sensação de vazio, desânimo ou desesperança.
Em alguns casos, esses sinais podem estar relacionados a ansiedade ou depressão, que precisam ser avaliadas por profissionais de saúde. Não é “frescura”, “falta de fé” ou “drama”: é saúde mental, tão importante quanto a saúde física.
Se você sente que está chegando ao limite, procurar um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde mental não é luxo. É autocuidado necessário.
Uma das maiores dores do cuidador é sentir que está carregando tudo sozinho. E, de fato, muitas vezes isso acontece por falta de informação, estrutura familiar ou serviços públicos suficientes. Mas, mesmo em cenários difíceis, é possível construir uma rede, nem que seja aos poucos.
Alguns caminhos:
Converse sobre a divisão de tarefas: muitas vezes, o outro não ajuda porque não sabe como. Liste o que você faz e peça ajuda em tarefas específicas.
Quebre a ideia de que só você sabe fazer “do jeito certo”: permitir que o outro faça diferente também é permitir ajuda.
Inclua irmãos, tios, avós dentro do possível: mesmo que não possam cuidar diretamente da pessoa autista, podem ajudar com compras, cozinha, transporte, burocracias.
Fale com a escola: professores e equipe pedagógica podem ajustar demandas, acolher melhor o aluno e, indiretamente, aliviar parte do peso em casa.
Converse com terapeutas e profissionais de saúde: eles podem orientar estratégias que facilitem a rotina, incluindo formas de reduzir conflitos e sobrecarga.
Busque grupos de apoio: associações, ONGs, grupos de pais de autistas (presenciais ou online) ajudam a compartilhar experiências, ideias e, principalmente, acolhimento.
Reaproxime amizades confiáveis: explique sua rotina e diga claramente do que você precisa (nem sempre é alguém para cuidar, às vezes é só alguém para ouvir).
Aprenda a dizer “sim” quando alguém oferece ajuda: isso não diminui o seu papel, só amplia o cuidado ao seu redor.
Criar uma rede de apoio pode não ser rápido, mas começar com uma conversa sincera já é um grande passo.
Autocuidado para cuidadores não precisa ser um “dia de spa” impossível de encaixar na rotina. Ele começa com pequenas ações reais, que cabem na vida que você tem hoje.
Algumas ideias práticas:
Tente manter horários minimamente regulares para dormir e acordar.
Beba água ao longo do dia (deixe uma garrafinha por perto).
Faça alongamentos simples, mesmo que sejam 5 minutos pela manhã ou à noite.
Se possível, caminhe um pouco, nem que seja dentro de casa ou no quarteirão.
Reserve alguns minutos do dia para silêncio ou oração, se isso fizer sentido para você.
Escreva em um caderno aquilo que está te preocupando – colocar no papel alivia a mente.
Evite consumir conteúdo que só gera comparação e culpa nas redes sociais. Prefira perfis que acolham e informem.
Permita-se sentir o que sente: raiva, tristeza, frustração, cansaço… Todas essas emoções cabem dentro de alguém que ama.
Busque momentos de conexão com quem você cuida que não sejam só “tarefas”: um abraço, uma música juntos, um desenho, um olhar.
Cultive uma pequena coisa só sua: um livro, uma série, um hobby simples, uma planta, um café tranquilo.
Lembrete importante: autocuidado não é egoísmo.
Egoísmo é abandonar o outro.
Autocuidado é se fortalecer para continuar presente.
Se o peso estiver grande demais, busque ajuda profissional. Você não precisa carregar tudo sozinho.
Cuidar de uma pessoa autista é um ato de amor, mas também é um trabalho intenso, complexo e, muitas vezes, solitário. Reconhecer que o cansaço existe, entender seus limites, criar (ou reconstruir) uma rede de apoio e incluir pequenos gestos de autocuidado na rotina não te fazem menos cuidador(a). Pelo contrário: te tornam mais inteiro(a) para seguir nessa caminhada.
Você não é fraco(a) por estar cansado(a). Você é humano. E todo humano precisa de cuidado.
💬 Agora eu quero te ouvir:
Você sente que o cansaço já dominou em algum momento? O que tem sido mais difícil na sua rotina como cuidador(a)?
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