Conviver com o autismo na família é uma jornada que não envolve apenas pais e cuidadores diretos. Irmãos, avós, tios e outros familiares também sentem o impacto do diagnóstico e, muitas vezes, querem ajudar – só não sabem exatamente como.
Ao mesmo tempo, alguns se sentem confusos, com ciúmes, sobrecarregados ou até excluídos da dinâmica do cuidado.
Este artigo foi escrito para você que busca envolver a família de forma saudável, respeitosa e amorosa no cuidado da criança ou do adolescente autista. Vamos falar sobre emoções, limites, comunicação e, principalmente, sobre como transformar o “peso” em parceria e o “medo” em compreensão.
Antes de pensar em estratégias práticas, é importante reconhecer as dificuldades que muitos pais e cuidadores enfrentam:
Sentimento de solidão: pais que sentem que “carregam tudo sozinhos” porque a família não entende o TEA ou não se aproxima.
Irmãos com ciúmes ou comportamento desafiador: a atenção extra ao filho autista pode gerar ressentimento, insegurança ou sensação de abandono nos outros filhos.
Falta de informação: familiares que fazem comentários inadequados (“é só falta de limites”, “na minha época não tinha isso”) por desconhecimento, e não por maldade.
Medo de expor a criança: receio de envolver outras pessoas por medo de críticas, julgamentos ou de que não saibam lidar com crises e comportamentos desafiadores.
Sobrecarga emocional: o cuidador principal já está cansado e não sabe por onde começar para orientar a família sem se sentir ainda mais exausto.
Se você se reconhece em alguma dessas dores, respire fundo: não é sinal de fracasso. É um retrato real da complexidade de viver o autismo na família. A boa notícia é que existem caminhos para transformar isso em uma rede de apoio mais leve e colaborativa.
Envolver irmãos e familiares no cuidado começa por algo simples, mas essencial: explicar o autismo de forma clara, respeitosa e ajustada à idade.
Em vez de usar definições técnicas, traga exemplos concretos:
“O cérebro do seu irmão funciona de um jeito diferente, como se fosse um sistema operacional diferente. Não é errado, só é outro jeito.”
“Ele pode se incomodar com barulhos que para a gente parecem normais, por isso tapa os ouvidos ou chora.”
“Ela gosta de repetir as mesmas coisas porque isso a deixa mais segura. Quando a rotina muda do nada, ela fica assustada.”
Para irmãos mais novos, metáforas ajudam muito. Por exemplo:
“Sabe quando você está tentando assistir a um desenho e tem muitos ruídos atrapalhando? Para o seu irmão, o mundo às vezes é assim: tudo muito alto, muito intenso ao mesmo tempo.”
Explique que:
Autismo não é culpa de ninguém.
Não é falta de amor, não é “maldade”, não é apenas “birra”.
O comportamento é uma forma de comunicação.
Quando a família entende que o TEA é uma forma diferente de funcionamento neurológico – e não um defeito de caráter – fica mais fácil olhar para a criança com empatia.
Convide irmãos e familiares a perguntar:
“O que você gostaria de saber sobre o autismo?”
“Tem algo que você não entende e te incomoda?”
“Você já ficou com vergonha ou com raiva em alguma situação? Podemos falar sobre isso.”
Validar as emoções, mesmo as difíceis (“sinto raiva”, “sinto vergonha”, “tenho ciúmes”), é um passo fundamental para envolver a família sem silenciar sentimentos.
Muitas vezes, na tentativa de “proteger” os irmãos, os adultos acabam não falando sobre o que está acontecendo. O problema é que o silêncio abre espaço para fantasias, medos e culpas.
Reserve um tempo específico para eles, sem o irmão autista por perto, para que possam:
Contar como se sentem com a rotina da casa.
Falar de situações na escola, na rua ou com amigos.
Expressar ciúmes, raiva ou tristeza sem serem julgados.
Frases que ajudam:
“Você também é muito importante aqui em casa.”
“Não é egoísmo sentir ciúmes. Vamos pensar juntos em como melhorar?”
“Se em algum momento você se sentir deixado de lado, pode me contar.”
É comum elogiar irmãos dizendo: “Você é tão maduro, tão compreensivo”. Mas isso pode dar a sensação de que ele não tem o direito de sofrer.
Além de elogiar, deixe claro que ele não é responsável pela criança autista, e sim um parceiro no cuidado, dentro de limites adequados à idade.
É importante que o irmão ajude, mas sem perder:
Tempo de brincar,
Espaço próprio,
Identidade e individualidade.
Envolver não é sobrecarregar. É incluir com equilíbrio.
Para que irmãos e familiares se envolvam de forma saudável, é importante ser específico sobre como podem ajudar.
Crianças pequenas:
Ajudar a mostrar brinquedos preferidos.
Participar de uma brincadeira simples juntos (jogos de encaixe, bolhas de sabão, desenhos).
Chamar o irmão pelo nome com carinho.
Crianças maiores e adolescentes:
Ajudar a lembrar combinados simples (“Lembra que ele não gosta de barulho muito alto?”).
Participar de pequenas rotinas, como organizar o cantinho de estudo ou brincar de algo que o irmão gosta.
Ajudar na comunicação, se já entender alguns recursos visuais ou sinais combinados.
Sempre deixe claro que:
Eles podem dizer “não” quando estiverem cansados.
Não são responsáveis pelas crises.
O adulto continua sendo o principal cuidador.
Para avós, tios, padrinhos e outros familiares, você pode sugerir:
Atitudes simples, mas significativas:
Aceitar adaptar encontros de família (menos barulho, menos gente, mais previsibilidade).
Respeitar quando a criança não quer abraços ou beijos.
Evitar comentários que culpabilizam (“ele precisa é de disciplina”, “isso é manha”).
Pequenos gestos que fazem diferença:
Perguntar: “Como posso ajudar hoje?”
Oferecer para ficar com os outros irmãos por algumas horas, para que o cuidador principal possa descansar.
Acompanhar em consultas ou terapias como apoio emocional.
Quanto mais concreto você for ao pedir ajuda, maior a chance da família se sentir segura para se envolver.
Envolver irmãos e familiares no cuidado também é uma forma de proteger o cuidador principal da sobrecarga. Mas isso só funciona quando a rede é estruturada com clareza.
Converse com cada pessoa da família sobre:
O que você realmente precisa (ex: ficar com os irmãos 1x por semana, ajudar nas tarefas da casa, acompanhar uma consulta).
O que a pessoa se sente confortável ou não em fazer.
Limites de horário, frequência e responsabilidades.
Evite o “esperar que o outro adivinhe”. A clareza reduz frustrações e ressentimentos.
Quando possível, compartilhe:
Materiais educativos sobre TEA.
Frases que ajudam e frases que ferem.
Dicas sobre como agir em situações de crise ou sobrecarga sensorial.
Você pode enviar vídeos, posts, artigos e dizer:
“Isso me ajudou a entender melhor o autismo. Pensei que pudesse te ajudar também.”
Alguns familiares:
Vão se envolver de imediato;
Outros vão resistir, negar ou evitar o contato;
Alguns só vão se aproximar depois de ver a evolução da criança ou perceber a sua constância.
Você não é responsável por convencer o mundo inteiro. Foque em construir pontes com quem está disposto a caminhar ao seu lado.
Envolver irmãos e familiares no cuidado não é um processo perfeito, nem acontece da noite para o dia. É um caminho feito de pequenas conversas, ajustes na rotina, respeito às emoções e, principalmente, muita empatia.
Quando a família entende que:
O autismo não é culpa de ninguém,
Cada pessoa tem um papel possível, e não um fardo obrigatório,
Amor também é aprender a enxergar o mundo pelos olhos da criança autista,
o cuidado deixa de ser “peso” e passa a ser um projeto de vida compartilhado.
💬 Agora é com você:
Como tem sido a participação dos irmãos e familiares na sua realidade?
Conte nos comentários suas experiências, dúvidas ou desafios. Sua história pode acolher e inspirar outras famílias que estão vivendo o mesmo caminho.