Ver seu filho querer falar, apontar, chorar ou se frustrar por não conseguir se expressar dói demais. Muitos pais de crianças autistas vivem essa realidade todos os dias – tentando “adivinhar” o que a criança sente, quer ou precisa.
A boa notícia é que, nos últimos anos, a tecnologia evoluiu muito e surgiram aplicativos pensados justamente para dar voz às crianças com dificuldades de fala, usando imagens, símbolos, sons e rotinas visuais. Eles não substituem terapias ou acompanhamento profissional, mas podem ser aliados poderosos para a comunicação no dia a dia.
Neste artigo, você vai entender:
Por que os aplicativos de comunicação alternativa são tão importantes no TEA;
Quais cuidados ter ao escolher um app para o seu filho;
5 aplicativos que podem ajudar na comunicação de crianças autistas;
Como introduzir esses recursos de forma leve e respeitosa na rotina da família.
Antes de falar de tecnologia, precisamos olhar para as emoções de quem cuida:
Frustração diária: a criança chora, grita, se joga no chão – e o adulto não sabe se é fome, dor, cansaço, medo ou apenas vontade de um brinquedo.
Culpa constante: muitos pais pensam “eu devia entender meu filho só pelo olhar”, e sofrem por não conseguir.
Medo do futuro: “Será que meu filho vai conseguir se comunicar um dia?”, “Ele vai conseguir ir à escola, fazer amigos, ser entendido?”.
Cansaço emocional: a rotina é pesada, com consultas, terapias, adaptações… e ainda existe a sobrecarga de tentar decifrar sinais o tempo todo.
Os aplicativos de comunicação não são mágica, mas podem ser um alívio real: ajudam a criança a mostrar o que sente e o que quer, e ajudam a família a se conectar com menos tentativas e erros – e mais clareza, respeito e autonomia.
Os aplicativos de Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) são ferramentas digitais que ajudam pessoas que não falam, falam pouco ou têm dificuldade de organizar a fala a se comunicar usando:
Imagens e pictogramas;
Símbolos visuais;
Texto simples;
Voz sintetizada (o app “fala” o que a criança escolhe).
Eles podem ser usados em tablets, celulares ou computadores e são muito indicados para crianças com TEA que:
Ainda não desenvolveram fala funcional;
Têm fala ecolálica (repetem sem função comunicativa clara);
Falam poucas palavras, mas não conseguem formar frases;
Falam, mas travam na hora de pedir, recusar, escolher ou contar algo.
Importante: usar CAA não atrapalha o desenvolvimento da fala. Pelo contrário, estudos indicam que oferecer um meio de comunicação alternativo reduz frustrações, melhora o vínculo e pode até estimular o desenvolvimento da linguagem oral em muitos casos.
Com tantos aplicativos disponíveis, é normal ficar perdido. Alguns critérios importantes:
Idioma e contexto cultural
Dê preferência a apps que tenham português e imagens que façam sentido na realidade brasileira (comidas, objetos, rotina).
Facilidade de uso
Ícones claros, interface simples, poucos toques para montar uma frase.
Quanto mais intuitivo, mais fácil para a criança, mas também para familiares, professores e cuidadores.
Personalização
Possibilidade de adicionar fotos da família, da casa, da escola, objetos favoritos, alimentos que a criança realmente consome.
Quanto mais “a cara da criança”, mais sentido o app faz para ela.
Compatibilidade com o dia a dia
Funcionar offline;
Estar disponível para o sistema operacional que a família utiliza (Android, iOS);
Ser viável financeiramente (gratuito, versão lite, ou com custo possível para a família).
Orientação profissional
Sempre que possível, escolha e configuração do app devem ser feitas em conjunto com fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional ou equipe de intervenção, para que o recurso faça parte de um plano terapêutico.
A seguir, veja uma seleção de aplicativos que têm sido usados para apoiar a comunicação de pessoas com TEA. Eles não substituem a avaliação profissional, mas podem ser ótimos pontos de partida para conversar com a equipe que acompanha seu filho.
O Matraquinha é um aplicativo brasileiro de Comunicação Alternativa e Aumentativa, criado pensando especialmente em pessoas autistas, não verbais ou com dificuldades de fala. Ele transforma imagens em voz com um simples toque, ajudando a criança a expressar desejos, emoções e necessidades. Google Play+1
Destaques:
Interface simples e acolhedora, com foco em tecnologia assistiva;
Permite que crianças, adolescentes e adultos se comuniquem tocando em cartões visuais;
Ideal para comunicação de necessidades básicas (“quero água”, “estou cansado”) e também para ampliar vocabulário.
Quando pode ajudar:
Crianças que se comunicam principalmente apontando, chorando ou puxando o adulto pela mão;
Famílias que buscam um app em português, pensado para o contexto do autismo.
O Livox é um aplicativo de CAA premiado, bastante conhecido no Brasil, usado por pessoas com diferentes deficiências, incluindo crianças autistas. Ele permite que a criança se comunique por meio de imagens e textos que são convertidos em voz. Dra. Jaqueline Bifano
Destaques:
Sistema adaptativo, que se ajusta às necessidades do usuário;
Possibilidade de montar telas personalizadas com símbolos e frases;
Foco na expressão de desejos, sentimentos e necessidades, facilitando a inclusão e participação social.
Quando pode ajudar:
Crianças com maior necessidade de personalização;
Escolas e clínicas que desejam um recurso versátil para vários perfis de alunos/pacientes.
O LetMeTalk é um app gratuito de comunicação alternativa que usa uma grande biblioteca de imagens (mais de 9.000 pictogramas ARASAAC) e suporte de voz para formar frases. Ele está disponível em vários idiomas, incluindo português, e já vem pré-configurado para crianças com transtorno do espectro autista. App Store
Destaques:
Gratuito;
Grande banco de imagens, com categorias organizadas (comida, ações, sentimentos, etc.);
Permite criar novas categorias e adicionar fotos da própria família.
Quando pode ajudar:
Famílias que precisam de uma solução gratuita para começar;
Crianças que já conseguem navegar por diferentes telas e categorias.
O Expressia é um aplicativo voltado para comunicação alternativa e aprendizado, permitindo criar pranchas personalizadas com imagens, sons e voz. Ele é indicado para pessoas que não podem falar ou têm dificuldade na expressão verbal, incluindo crianças autistas. Google Play
Destaques:
Criação de pranchas de comunicação sob medida para a rotina da criança;
Biblioteca online de pranchas prontas (Pranchoteca);
Pode ser usado tanto para comunicação funcional quanto para atividades de aprendizagem.
Quando pode ajudar:
Famílias e escolas que desejam integrar comunicação e aprendizado em um único app;
Crianças que se beneficiam de rotinas visuais e organização por pranchas temáticas (banho, escola, alimentação, lazer).
O Avaz Lite AAC é uma ferramenta de comunicação baseada em imagens e texto, pensada para apoiar crianças e adultos com autismo e outras dificuldades de comunicação. O usuário toca em imagens que representam ideias, sentimentos ou objetos, e o app “fala” a frase construída. Speechify
Destaques:
Foco em frases funcionais do dia a dia (“Eu quero…”, “Eu não quero…”, “Me deixe em paz”);
Ajuda a criança a entender a estrutura de frases e a ampliar vocabulário;
Pode ser uma boa porta de entrada para famílias que querem testar o modelo de comunicação por símbolos.
Quando pode ajudar:
Crianças que já reconhecem imagens e conseguem tocar em ícones de forma intencional;
Situações de grande frustração por não conseguir dizer “sim”, “não”, “quero” ou “não quero”.
Não basta instalar o aplicativo: é na rotina real que ele ganha significado. Algumas orientações práticas:
Comece pequeno
Escolha momentos específicos (hora de comer, hora do banho, brincadeira favorita) para usar o app.
Foque primeiro em poucas funções: pedir, recusar, escolher entre duas opções.
Use junto com a criança
Sente ao lado, mostre as imagens, nomeie em voz alta:
“Olha, aqui é ‘água’. Se você quiser água, pode tocar aqui.”
A criança aprende observando o adulto modelando o uso.
Respeite o tempo dela
Algumas crianças se adaptam rápido; outras levam semanas ou meses para “entender” que aquele recurso é uma forma de falar.
Não force nem use o aplicativo como punição (“só ganha se usar o app”).
Integre escola e terapias
Converse com fonoaudiólogos, terapeutas e professores sobre o uso do app;
Quando todos usam a mesma ferramenta (ou a mesma lógica de comunicação), a criança generaliza melhor o aprendizado.
Celebre cada tentativa
Mesmo que a criança toque “errado” no início, valorize o esforço:
“Que legal, você usou o tablet para falar comigo!”
Aos poucos, você vai ajudando a aproximar o toque da intenção real.
Os aplicativos de comunicação não substituem o olhar, o colo, o abraço, a presença. Mas eles podem ser uma ponte poderosa entre o mundo interno da criança e o mundo à sua volta.
Quando uma criança autista consegue mostrar que está com sede, com medo, com dor ou simplesmente que quer o brinquedo azul e não o vermelho, algo muito importante acontece:
ela é vista,
ela é ouvida,
e a família sente que, enfim, está conseguindo acessar esse universo tão único.
Se você se reconheceu nas dores deste texto, talvez seja o momento de conversar com a equipe que acompanha seu filho sobre o uso de aplicativos de comunicação alternativa.
Conte aqui nos comentários: você já testou algum desses apps com seu filho ou aluno? Qual foi a maior dificuldade e a maior conquista nessa jornada de comunicação? Compartilhar sua experiência pode ajudar outras famílias que estão começando agora.