Criar rotina já é um desafio para qualquer família. Quando falamos de crianças no espectro autista, isso pode parecer ainda mais difícil — mas também é uma das estratégias mais poderosas para trazer previsibilidade, segurança e redução de crises dentro de casa.
As rotinas visuais são ferramentas que usam imagens, símbolos, palavras ou cores para mostrar, de forma concreta, o que vai acontecer ao longo do dia. Elas ajudam a criança a entender a sequência das atividades, se organizar melhor e antecipar o que vem a seguir — algo essencial para muitos autistas, que têm dificuldade com mudanças inesperadas e compreensão de linguagem abstrata.
Este artigo é um guia simples, acolhedor e prático para você aprender como montar rotinas visuais que realmente funcionam na sua casa, respeitando o ritmo da sua criança e a realidade da sua família.
Antes de falar de ferramentas, vamos falar de sentimentos.
Muitos pais e cuidadores relatam coisas como:
“Já fiz quadro de rotina, mas ninguém usa.”
“Meu filho rasga os cartões ou ignora as imagens.”
“Eu não consigo manter a rotina, sempre acontece algo e desorganiza tudo.”
“Eu vejo vídeos na internet e parece fácil, mas na prática não funciona aqui em casa.”
Essas dores são reais e legítimas. E é importante entender alguns pontos:
Crianças no espectro podem ter resistência a mudanças, mesmo mudanças positivas (como começar a usar um quadro novo).
Rotina visual não é mágica: ela precisa ser ensinada, praticada e reforçada, como qualquer nova habilidade.
Se a rotina não está funcionando, isso não significa fracasso da família — geralmente significa que ela não está adaptada ao nível de compreensão da criança ou à realidade da casa.
A boa notícia é que, com alguns ajustes, é possível transformar a rotina visual em uma aliada do dia a dia — sem perfeccionismo, sem culpa, mas com consistência e carinho.
Antes de imprimir mil cartões, pare um pouquinho e observe.
Algumas perguntas que ajudam:
Ela entende melhor imagens reais, desenhos simples ou palavras escritas?
Ela já reconhece pictogramas (aqueles desenhos pretos simples) ou precisa de fotos verdadeiras?
Ela ainda não lê, mas reconhece símbolos?
Ela se interessa por cores, personagens ou objetos específicos?
Para muitas crianças autistas, principalmente as menores ou com atraso de linguagem, começar com fotos reais (da escova de dentes, do prato de comida, da cama, da mochila) funciona melhor do que desenhos abstratos.
Dica prática: você pode tirar fotos com o celular dos próprios objetos da casa e montar os cartões depois, no computador ou até impressos em papel comum.
Tentar organizar todo o dia de uma vez geralmente gera frustração. Comece por:
O momento mais difícil (por exemplo: hora de dormir, hora do banho, dever de casa), ou
Um momento que se repete sempre igual (por exemplo: rotina da manhã antes da escola).
Começar pequeno aumenta as chances de dar certo e gera sensação de conquista.
Rotina visual que funciona é aquela que cabe na sua vida, não na vida perfeita do Instagram.
Se você trabalha em turnos, se a família é grande, se a casa é pequena — tudo isso precisa ser levado em conta.
Ao montar a rotina, pergunte-se:
Eu consigo manter isso quase todos os dias?
Outras pessoas da casa vão conseguir seguir essa sequência?
Se a resposta for “não”, simplifique.
Agora, vamos organizar na prática.
Você pode usar:
Quadro branco ou lousa magnética
Cartolina ou papelão
Placa de EVA
Painel de cortiça com alfinetes
O importante é que seja acessível à criança (na altura dela) e fique em um local visível, por exemplo:
Perto da porta de saída (para rotina da escola)
No quarto (para rotina de dormir)
No banheiro (para rotina de higiene)
Cada cartão deve representar uma ação por vez, por exemplo:
🪥 Escovar os dentes
🛏️ Arrumar a cama
🍽️ Café da manhã
🚿 Tomar banho
🎒 Colocar a mochila
💤 Hora de dormir
Você pode usar:
Fotos reais (tiradas em casa)
Imagens simples e coloridas (feitas no computador)
Pictogramas (símbolos visuais)
Dica: plastificar os cartões ou colocá-los em saquinhos plásticos ajuda a aumentar a durabilidade e evita que rasguem com facilidade.
Coloque os cartões na ordem em que as ações acontecem. Por exemplo, rotina da manhã:
Acordar
Ir ao banheiro
Escovar os dentes
Trocar de roupa
Tomar café
Pegar a mochila
Ir para a escola
Quanto mais previsível a sequência, melhor. Se às vezes muda, você pode ter cartões extras (por exemplo, “Ir para a terapia”, “Ir para a casa da vovó”) e encaixá-los quando necessário.
Para facilitar:
Use setas indicando o sentido da leitura (da esquerda para a direita ou de cima para baixo).
Separe períodos do dia por cores:
Manhã (amarelo)
Tarde (verde)
Noite (azul)
Isso ajuda a criança a visualizar o tempo e entender que o dia é dividido em partes.
Muitas rotinas “não funcionam” porque ninguém ensinou a criança a usá-la. A rotina visual é uma ferramenta que precisa de treino, repetição e reforço positivo.
Mostre o quadro para a criança em um momento tranquilo, e explique com frases simples:
“Olha, esse é o quadro que vai te ajudar a saber o que vem depois.”
“Aqui está o que a gente faz de manhã. Primeiro isso, depois aquilo.”
Você pode ir apontando para cada cartão e representando a ação com o corpo, para tornar mais concreto.
Não adianta deixar o quadro esquecido. Sempre que forem iniciar uma atividade, faça algo assim:
“Vamos ver o que vem agora no nosso quadro?”
“Já fizemos isso aqui, agora é a vez disso.”
Algumas famílias gostam de:
Virar o cartão depois que a atividade é feita,
Colocar o cartão em uma área “feito”,
Usar um velcro para tirar a imagem e guardar em um envelope de concluídos.
Esse gesto concreto ajuda a criança a entender que a atividade foi concluída e está tudo bem seguir para a próxima.
Quando a criança acompanhar a rotina, mesmo que com ajuda, valorize:
“Você seguiu o quadro, parabéns!”
“Que legal, você viu o que vinha depois e foi fazer!”
Reforço não precisa ser prêmio material; pode ser:
Elogios específicos,
Um abraço,
Um tempo especial com uma atividade preferida.
Rotinas visuais que funcionam são aquelas que evoluem junto com a criança e com a família.
Alguns sinais de que a rotina precisa de ajustes:
A criança ignora o quadro constantemente.
Ela fica confusa com muitas etapas.
Ela se irrita e tenta arrancar ou rasgar os cartões.
Os adultos esquecem de usar o quadro no dia a dia.
Nesses casos, pergunte-se:
Há cartões demais?
As imagens estão difíceis de entender?
A sequência está longa para a idade da criança?
Às vezes, a solução é reduzir:
Em vez de 10 etapas, comece com 3 ou 4 principais.
Em vez de rotina do dia inteiro, foque só na hora de dormir.
Se a criança gosta de um personagem específico, cores ou temas, use isso a seu favor:
Molduras coloridas com a cor preferida.
Pequenos adesivos de personagens para marcar tarefas feitas.
Um “título” no quadro com o nome da criança:
“Rotina do João”
“Dia da Maria”
Quanto mais a criança se identificar com o quadro, maior a chance de ela se engajar.
Com o tempo, a criança pode:
Começar a ler palavras,
Entender melhor relógio e horários,
Precisar de mais autonomia.
Você pode ir ajustando aos poucos:
Acrescentando palavras junto às imagens.
Introduzindo horários aproximados (“8h – café”, “20h – dormir”).
Deixando que a própria criança ajude a montar a sequência do dia.
Assim, a rotina visual deixa de ser apenas um apoio e se torna uma forma de construir independência.
Criar rotinas visuais que realmente funcionam em casa não significa fazer algo perfeito ou digno de revista. Significa construir, aos poucos, um ambiente mais previsível, compreensível e seguro para a criança — e também para os adultos.
Lembre-se:
Comece pequeno.
Observe a sua criança.
Ajuste sempre que necessário.
E, acima de tudo, não se culpe se nem todo dia der certo.
Rotina visual é um processo, não um produto final. É como um abraço de previsibilidade no meio do caos do dia a dia.
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Você não está sozinho. Um dia de cada vez, um cartão de cada vez. 💙