Passo a Passo para Garantir Atendimento Prioritário e Acompanhamento pelo SUS

Quando chega o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), muitas famílias se sentem perdidas: “Por onde eu começo?”, “O SUS realmente oferece esse apoio?”, “Como conseguir atendimento prioritário sem precisar brigar o tempo todo?”.

Se você está nesse momento, respira fundo: você não está sozinho(a).
Este guia foi pensado para pais, mães e cuidadores que desejam entender, de forma prática, como garantir atendimento prioritário e acompanhamento contínuo pelo SUS para a pessoa autista da família.

Vamos caminhar juntos, passo a passo, para transformar direitos em realidade no dia a dia.

As dores de quem tenta acessar o SUS com um familiar autista

Antes de falar de soluções, é importante reconhecer as dores que muitas famílias vivem:

  • Filas longas e desorganizadas, sem respeito claro à prioridade.

  • Desconhecimento dos profissionais sobre o TEA e os direitos da pessoa autista.

  • Falta de informação sobre onde buscar terapias, acompanhamentos e encaminhamentos.

  • Sentimento de culpa e impotência, como se a família tivesse que “implorar” por algo que já está previsto em lei.

  • Cansaço emocional de ter que explicar o diagnóstico várias vezes e enfrentar olhares de julgamento.

Se alguma dessas situações já aconteceu com você, saiba:
➡️ A pessoa autista tem direito a atendimento prioritário e a acompanhamento pelo SUS.
A seguir, você vai entender como organizar esse processo em 4 etapas claras.

1. Entenda os direitos da pessoa autista no SUS

O primeiro passo para garantir atendimento prioritário é conhecer os direitos. Quando você sabe o que a lei garante, se sente mais seguro(a) para dialogar e exigir respeito.

Alguns pontos importantes:

  • A pessoa autista é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.

  • Isso garante direitos de prioridade em serviços públicos e privados, incluindo atendimento de saúde pelo SUS.

  • O atendimento prioritário vale para:

    • Unidades Básicas de Saúde (UBS);

    • Hospitais públicos;

    • Ambulatórios e centros de especialidades;

    • Farmácias de medicamentos de alto custo;

    • Serviços de reabilitação e acompanhamento.

Pense assim: o direito já existe. O que você vai fazer é abrir o caminho para que ele seja respeitado na prática.

Sempre que possível, tenha em mãos:

  • Laudo médico com diagnóstico de TEA.

  • Documentos pessoais (RG/CPF ou certidão de nascimento, cartão do SUS).

  • Carteira de Identificação da Pessoa com TEA, se seu estado/município oferece (às vezes chamada de “Carteira do Autista”).

Essa “pastinha de direitos” será a sua aliada em todas as etapas.

2. Organize documentos e faça o cadastro na Unidade Básica de Saúde

Antes de buscar especialistas, é fundamental estar vinculado à Unidade Básica de Saúde (UBS) do seu bairro. É na UBS que geralmente tudo começa dentro do SUS.

2.1. Faça ou atualize o cadastro na UBS

Leve:

  • Documento da pessoa autista;

  • Cartão do SUS (se não tiver, pode solicitar na própria unidade);

  • Comprovante de residência;

  • Laudo médico com diagnóstico, se já tiver.

Peça para:

  • Atualizar os dados do prontuário, incluindo o diagnóstico de TEA;

  • Registrar que a pessoa é prioritária para atendimento;

  • Saber o nome do médico de referência (geralmente clínico geral ou pediatra).

2.2. Tenha uma pasta organizada

Crie uma pasta física ou digital com:

  • Laudos médicos;

  • Relatórios de terapias (fono, TO, psicologia, etc., se houver);

  • Encaminhamentos anteriores;

  • Receitas e pedidos de exames.

Isso ajuda muito quando você precisa passar por vários profissionais e evitar repetir a mesma história inúmeras vezes.

3. Como solicitar atendimento prioritário na prática

Saber que há prioridade é uma coisa. Conseguir que essa prioridade seja respeitada no balcão é outra. Aqui vão estratégias práticas.

3.1. Na recepção da UBS ou hospital

Ao chegar:

  • Dirija-se ao balcão e diga, com calma e firmeza:

    “Meu filho (ou filha/familiar) é autista e tem direito a atendimento prioritário. Aqui está o laudo e o cartão do SUS.”

  • Mostre os documentos de forma organizada.

  • Se houver senha, pergunte se existe senha de prioridade e solicite.

Lembre-se: você não está pedindo um favor. Está apenas lembrando de um direito que, muitas vezes, o próprio serviço está sobrecarregado e acaba esquecendo de aplicar corretamente.

3.2. Em casos de emergência

Na urgência/emergência, a regra é o estado clínico, mas o autismo deve ser considerado:

  • Agitação, crises sensoriais, autoagressão ou risco emocional também são situações que precisam de avaliação ágil.

  • Explique o que está acontecendo:

    “Ele/ela está em crise, é autista, não tolera esperar muito tempo, isso piora o quadro.”

Isso ajuda a equipe de triagem a compreender que aquele quadro exige cuidado mais rápido.

3.3. Se o direito não for respeitado

Infelizmente, nem sempre as coisas fluem como deveriam. Se você sentir que está sendo desrespeitado:

  • Mantenha a calma, mas firmeza na fala;

  • Peça para falar com o responsável pela unidade (coordenação ou direção);

  • Registre a situação por escrito no livro de reclamações da unidade;

  • Se necessário, use canais de ouvidoria do SUS do seu município ou estado.

Documentar ajuda a criar histórico e a pressionar por melhorias.

4. Garantindo acompanhamento contínuo pelo SUS

Não basta ser atendido uma vez: a pessoa autista precisa de cuidado contínuo, com acompanhamento multidisciplinar sempre que possível.

4.1. Converse com o médico da UBS sobre o plano de cuidado

Na consulta com o médico de referência:

  • Explique as principais dificuldades: comunicação, comportamento, alimentação, sono, escola, etc.;

  • Pergunte sobre encaminhamentos possíveis na sua região:

    • Neuropediatra ou psiquiatra infantil;

    • Fonoaudiólogo;

    • Terapeuta ocupacional;

    • Psicólogo;

    • Centros especializados (CAPSi, CER, entre outros).

Peça que o médico registre no prontuário a necessidade de acompanhamento contínuo e renovações regulares de receitas, relatórios, etc.

4.2. Acompanhamento em serviços especializados

Alguns municípios possuem:

  • CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil);

  • Centros especializados em reabilitação;

  • Ambulatórios de neurodesenvolvimento.

Pergunte na UBS:

“Quais serviços especializados estão disponíveis para crianças/adolescentes/adultos autistas pelo SUS aqui na região?”

Guarde os encaminhamentos e prazos de retorno. Se a espera for muito longa, pergunte sobre:

  • Listas de regulação/espera;

  • Possibilidade de priorização devido ao quadro clínico e funcional.

4.3. Construindo parceria com a equipe de saúde

Na prática, o acompanhamento melhora muito quando família e equipe se veem como parceiros. Algumas atitudes ajudam:

  • Levar anotações sobre crises, alterações de comportamento e dificuldades do dia a dia;

  • Perguntar como a equipe pode apoiar a escola (relatórios, orientações, contatos);

  • Solicitar orientações práticas sobre rotina, sono, alimentação, autocuidado.

Quanto mais informação organizada você leva, mais fácil é para o profissional pensar em um plano realmente adequado para sua realidade.

Conclusão: seus direitos não são um peso, são proteção

Buscar atendimento prioritário e acompanhamento pelo SUS para uma pessoa autista da família exige paciência, energia e, muitas vezes, coragem. Não é fácil enfrentar filas, burocracias e desconhecimento.

Mas lembre-se:
✅ Você não está pedindo privilégio.
✅ Você está garantindo um direito que existe justamente para proteger quem mais precisa.

Cada vez que você se organiza, explica, registra e insiste, abre um caminho não só para seu filho ou familiar, mas também para outras famílias que virão depois de você.

Se este conteúdo te ajudou:

👉 Deixe um comentário contando sua experiência com o SUS.
👉 Compartilhe com outras famílias que precisam dessa orientação.
👉 Salve este passo a passo para consultar sempre que surgir uma dúvida.

Você não está sozinho(a). Informação é uma forma de cuidado — com quem você ama e também com você.